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Paterson



PATERSON (2016) Jim Jarmusch

Conta-se que “não se deve regressar onde se foi feliz”, nunca percebi bem esta expressão. Voltei a Paterson, o filme, e fiquei extremamente surpreendido com este segundo visionamento.
A estreia de Paterson em sala foi constantemente adiada, como grande admirador da filmografia de Jarmusch cansei-me de esperar pelo filme, e o primeiro visionamento foi há uns meses e sem legendas. Há cineastas em actividade que não falho um filme novo, Jarmusch é um deles, Aki kaurismaki outro, e poucos mais. Felizmente e finalmente este filme estreou em sala e talvez o espaço e a tela maior tenham contribuído para que desta segunda vez o filme tenha crescido e valorizado ainda mais. Este filme precisa de tempo e de entrega à lenta observação. Não, não é apenas um filme sobre poesia, muito menos sobre “a poesia”, ou sobre um poeta, quanto muito sobre o quotidiano de um homem que lê e escreve poemas. Não coloca a poesia em nenhum pedestal, antes questiona e mostra o acto de escrever e não dá respostas sobre o que é a poesia, não se espere por um manual poético. Se Jarmusch caísse nessa armadilha, teria falhado completamente o filme, e é por um ténue fio que escapa à queda. Foi com essa primeira errada leitura que fiquei, tudo por causa daquelas imagens demasiado ilustrativas e de um lirismo para o qual já perdi a paciência, refiro-me às sequências de imagens em fundido, água, letras dos poemas manuscritas, mais outras imagens em várias camadas. Essa primeira análise mantém-se, são dispensáveis, redundantes e sublinham a bold a audição e a leitura dos poemas.
Essas imagens são o ponto frágil do filme, a armadilha lírica da expressão “um filme poético”. No arame, Jarmusch mantém o equilíbrio durante todo o filme e começa de forma admirável com aquele plano no quarto, um picado absoluto. Esse plano recorrente é o da observação atenta que está presente na poesia de quem sabe ler o mundo, na paisagem, nos rostos, nos corpos, nos gestos, nas palavras, nos olhares e objectos. É nessa lenta observação quotidiana do mundo que nascem “as palavras de água” de Paterson, um homem simples e condutor de autocarros (Adam Driver com uma interpretação magnifica).
O filme divide-se em 7 capítulos diários de segunda a domingo e são 7 as sequências estruturais de todo o filme:
1- Os planos picados no quarto com a mulher (Golshifteh Farahani), o acordar para a observação do mundo, o relógio, os retratos e outros objectos
2- Na sala/cozinha com a mulher e o cão, Paterson sempre a observar o espaço que o rodeia
3- Na saída de casa, com aquele gag diário da caixa do correio, a caminho a pé para o trabalho, observa e vai diariamente construindo um poema
4- No interior do autocarro, a conduzir no seu trajecto pela cidade, observa e escuta a conversa dos passageiros
5- Ao fim do dia leva o cão ao seu passeio e vai ao habitual “Shades Bar”. Observa todo o espaço, os objectos, escuta com atenção os outros clientes enquanto bebe a sua cerveja
6- No cinema com a mulher a ver um filme a preto e branco do século XX (Island of Lost Souls, 1932, de Erle C. Kenton)
7- Sentado no banco a observar a cascata de água de Paterson (New Jersey), onde escreve poemas e no final tem aquela conversa reconfortante com o poeta japonês.
Estas sequências são pontuadas por outros detalhes narrativos e de observação atenta como os livros e os poetas de referência de Paterson (William Carlos William, Frank O’Hara, Emily Dickinson, etc); a conversa sobre poesia com a jovem rapariga; a conversa com o rapper na lavandaria; as conversas com o dono do bar e evidentemente as conversas com a mulher que consciente da poesia que Paterson escreve no seu caderno ou livro secreto o tenta convencer a que faça umas fotocópias de salvaguarda. E chegamos ao clímax do filme, aquele homem que nunca se assumiu como poeta, vê-se perante uma grande perda. Completamente consternado caminha em direcção à cascata que com tanto prazer costuma contemplar, de mãos no bolso e de alma vazia, senta-se e observa, entretanto aproxima-se um poeta/turista japonês. Conversam sobre poesia, ganha um caderno novo e começa de novo a pensar em escrever poemas, sabemos que vai recomeçar, que não pode deixar de o fazer, através daquele curto travelling sobre o rosto de Paterson. Recomeçar tudo outra vez, porque se a poesia “ensina a cair” o cinema ajuda a levantar.
Voltei a Paterson, o filme, para contrariar as expressões gastas de frases feitas e confirmar que das fragilidades se pode fazer uma grande obra, neste caso um grande filme. Ah Ah! (diria o poeta Japonês).

[Não quero terminar este texto sem referir e destacar os poemas que aparecem no filme da autoria de Ron Padgett (1942) que muito gostaria de ver traduzido e editado em Portugal]