Árvore da Cinefilia



A convite do Carlos Natálio escrevi este texto para a sua "Árvore da Cinefilia"




Je n'aimerai pas voir un film pour la première fois en vidéo ou à la télévision, on voit d'abord un film en salle. Cinéma et vidéo, c'est exactement la différence entre un livre qu'on lit et un livre qu'on consulte –  

François Truffaut


O título “Árvore da Cinefilia” é uma feliz expressão que me diz muito, porque junta as árvores e o cinema tão indispensáveis na minha vida. Não sei precisar qual foi o filme que serviu de semente, as árvores de grande porte e a cinefilia são de crescimento lento e como quase todos nós, vejo filmes antes de saber ler e escrever.
O fascínio pelas imagens acompanha-me desde a infância, quando me iniciei a ver filmes mudos de Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd e todos os outros pioneiros que estiveram nas origens do cinematógrafo. Vi esses primeiros filmes na televisão.
Lembro-me de sair da escola a correr para apanhar, não o autocarro, mas as curtas-metragens de Charlot que passavam pelas 18h no segundo canal e os filmes de animação que Vasco Granja apresentava. Da primeira vez que vi “The General” e nunca mais esquecer o filme e o genial Buster Keaton.
Dos Westerns, os Noir, os filmes de aventuras, os épicos e os Peplums que víamos em família, aos sábados à noite, no grande sofá da sala. Os filmes de Tarzan e a comédia italiana com o carismático Totò nas sessões televisivas de domingo à tarde.
Cresci numa cidade com três salas de cinema (agora desaparecidas) e exibições diárias de filmes. Assistia a praticamente todos os filmes que estreavam, os únicos critérios eram: ser um filme novo e em função da faixa etária. Quantos mais anos tinha, mais filmes via. Antes de ter a idade para certos filmes acendia um cigarro que ardia no canto da boca e amassava um jornal debaixo do braço, às vezes, ainda que engasgado passava, não enganava os porteiros, era um velho truque dos mariolas da altura, e se estavam bem dispostos, os porteiros resmungavam, mas lá cortavam o bilhete. Em segundos viajava no tempo. As minhas aventuras em salas de cinema são muitas, contudo essas são outras histórias. Neste percurso inicial sem metodologia alguma, numa anarquia estimulante, como a descoberta do mundo, ia decorando os nomes de realizadores e actores. Mais tarde recortava reproduções de cartazes dos jornais, criei pastas e pastas com fichas de filmes, textos críticos e tudo o que se relacionava com cinema, começava o interesse pelo lado reflexivo que os filmes me provocavam. Tinha um caderno onde apontava todos os filmes a que assistia, com a respectiva ficha técnica e a galáxia das estrelas. Tudo isso já não existe que o tempo não perdoa, gostaria de ter conservado o caderno, porém e infelizmente perdi-lhe o rasto. Na altura do liceu fazia de tudo para ir ao cinema, faltava a imensas aulas e até doente com gripe conseguia fugir de casa, à tarde, para ir ver um filme, voltava para o conforto da cama e no dia seguinte é claro que continuava com febre e a escola era muito longe e não passava filmes, mas fazíamos muitos filmes. Os filmes eram a minha cura, e às vezes a desgraça da minha vida. As salas de cinema o refúgio, a casa onde encontrava a minha paz. Esta compulsão por ver filmes, descobri mais tarde que se chamava cinefagia, e então ria-me a pensar que sofria de uma doença saudável.
No final da adolescência começam as minhas leituras sobre cinema, na biblioteca requisitava os primeiros livros, o André Bazin e os outros todos, à cinefagia acumulei a angústia, referiam filmes que não conhecia, que não sabia, nem imaginava como os poderia ver, pensava que não iria ter tempo na vida, suficiente para ver os filmes todos, ingenuamente julgava que o cinema era uma caixa com fundo, só muito mais tarde descobri que é um buraco sem fim. Resignado mas não vencido continuaria a ver filmes. Todavia, era preciso o maldito dinheiro para ir ao cinema, num almoço de domingo disse ao meu pai “Olha, já que não tenho semanada, não poderias todos os domingos dar-me uns cobres para ir ao cinema?”. A resposta aguçou o desenrascanço e dinheiro para filmes e flippers nunca me faltou. A minha cinefilia, sem saber o que era isso, inicia-se nos finais dos anos 70 e cresce nas décadas de 80 e 90 entre a televisão e as salas de cinema e mais tarde perde-se no delírio de milhares de gravações em cassetes VHS. Agora continua, nas salas que ainda resistem e muito na indomável cinemateca virtual da internet, essa preciosa mina cinéfila. Quando pela primeira vez mergulhei na Nouvelle Vague só não me afoguei porque já tinha muito mar de filmes. Com o grande Jean-Luc Godard levei tão grande bofetada que nunca mais recuperei, foi com Godard que aprendi a pensar nas imagens, nos sons e palavras e nas relações complexas que estabelecem. E quando entrei na blogosfera, JLG foi o padrinho do blog “num filme de godard” que depois mudei para “unraccord” e agora está encerrado. Para esta “Árvore da Cinefilia” sei precisar muito bem qual é o meu filme, não poderia ser outro a não ser “Les Quatre Cents Coups” (1959) de François Truffaut. Foi neste filme que encontrei a minha segunda filiação, eu pertencia àquele mundo de Antoine Doinel (Jéan-Pierre Léaud) por tudo o que já contei atrás. Tinha e mantém-se um fascínio pela cidade de Paris, o genérico do filme começa com uma sequência de imagens da cidade e da Tour Eiffel (Truffaut era fascinado pela torre e colecionava livros ilustrados, postais e objectos que a reproduziam), Doinel também fugia para as salas de cinema, tal como Truffaut, tal como eu, e só para me chatear também lia Balzac. Durante uns tempos substituia, na brincadeira, o título literal português pela expressão “Trinta por uma linha” ninguém conhecia esse filme de um puto rebelde que gostava de ver filmes. E como não ter um filme com aquela maravilhosa e magistral sequência final, de cerca de 4 minutos, de Doinel a correr em fuga até ao mar, como um dos meus filmes da vida?



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