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Adeus à Linguagem


Breves e pobres palavras sobre o dia 24 de Julho que guardarei na memória, depois de assistir ao magnifico filme “Adeus à Linguagem” (2014) de Jean-Luc Godard.
Vi em casa a versão 2D, senti que perdi alguma coisa, só possivel de ver em 3D, principalmente em relação à profundidade das imagens, que o 2D não proporciona na sua totalidade. Porém, é também no que não se vê que se vislumbra algo de novo. (O filme fala disso mesmo).
Este é mais um filme de JLG que inflige uma cesura na história do cinema. Como quase sempre, Godard assume-se como o pensador, evocando até a escultura de Rodin, através das imagens, sons e palavras assentes em fragmentos de uma síntese absoluta do estado do mundo. Como habitualmente, evoca e cita filósofos, escritores e pintores cruzando-os com a cinefilia, sempre presente na reflexão politica sobre o mundo e a história. Neste filme, diria religioso, “A sombra de Deus...Toda a gente pode fazer com que Deus não exista, mas ninguém o faz” (retirado do filme) no sentido de religar a linguagem do mundo nas suas diversas assumpções como a palavra, a imagem e o som e chegar à pobreza da própria linguagem. Esta aproximação é uma marca da religiosidade do filme que se transmite, também, através da música. Por isso, a presença constante de um cão como símbolo da essência das coisas. Visionei o filme juntamente com o meu gato, surpreendentemente ele estava bastante atento a olhar para a TV, estaria a ver as imagens que eu não conseguia? “Adeus à Linguagem” não é um filme que apenas continua a obra de JLG, mas que faz o cinema dar um salto para uma imensa profundidade. Um filme híbrido na forma 2D e 3D, permitindo dois visionamentos bem diferentes na recepção, um na sala de cinema e outro em casa, tal como ironicamente um filme doméstico, um home movie. Jean-Luc Godard aos 84 anos é o mais novo visionário do conceito de cinema, e este um filme do Não e da Resistência.