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Outros amarão as coisas que eu amei






Um filme belíssimo. Uma sentida homenagem ao grande cinéfilo João Bénard da Costa e ao cinema pelo cineasta Manuel Mozos:

"João Bénard da Costa foi director da Cinemateca Portuguesa durante 18 anos. Eu segui o caminho das suas memórias e encontrei o seu amor pela pintura, pelas igrejas, por Proust e Musil, por Itália, cinema, Mozart e os seus amigos. Mas o que eu realmente queria era tornar presente o homem de carne e osso, cheio de contradições, um homem livre.
Ele gostava de uma frase de Manoel de Oliveira:
"A vida é um enigma, não é legível, e são os rituais que a permitem ler." Este filme seria uma continuação desse ritual, mas para lá da sua morte..."

Um filme de fragmentos da memória corporizados nas imagens, sons e palavras de filmes, pinturas, música e textos. As paixões pela arte, livros e cinema. O desejo, o mistério, a morte e a vida estão representados neste magnifico documentário que se afasta das repetidas e gastas fórmulas das biografias filmadas com testemunhos e das montagens tradicionais telejornalísticas.  
O fantasma de João Bénard da Costa apresenta-se envolto de poesia, tanto que até o título incorpora um verso da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen "Outros amarão as coisas que eu amei".
Este verso de esperança e que muitos recebem e entendem como uma enorme partilha, como é o meu caso, paradoxalmente, poderá deixar de fazer sentido para outros e até para este mundo do século XXI onde o Cinema da época dourada das salas e da cinefilia já não existe. Escute-se com toda a atenção as palavras de João Bénard da Costa, neste documentário, sobre o que foi a Cinefilia. E todos aqueles que, actualmente, se dizem cinéfilos por verem filmes compulsivamente, talvez percebam que cinefilia é muito mais que ver muitos filmes. Espera-se que não demore muito tempo para que este documentário seja exibido pela RTP2 e que todos - "os outros" do poema - também venham a amar o que João Bénard da Costa amou.



QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.



Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar