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Salas de Cinema


Saudades do tempo em que se ia ao Cinema, como quem vai ao Café. Nada mais. Este século XXI todo tecnológico e minado de links vazios, cinicamente promove a mais falsa das relações entre as pessoas, isso de redes sociais virtuais. Quase não há Salas de Cinema, nem Cafés. Um desadmirável mundo novo. A angústia de um cinéfilo é acordar, consultar os filmes em sala, e não encontrar um único que lhe interesse para ver.



Na imagem, à esquerda, Antoine Doinel (Jean-Pierre Léaud) no filme que, umas décadas anteriores, reflecte um pouco a minha infância "Les Quatre Cents Coups" (1959) de François Truffaut. Tenho uma ternura imensa por este filme, tal como Doinel/Truffaut, também para mim as salas de cinema eram o meu refúgio, onde sempre me sentia feliz.(texto)

O "mundo pula e avança" como diz o poema de António Gedeão, infelizmente nem sempre consegue satisfazer os sonhos de todos nós. A máquina capitalista ultra-liberal do famigerado progresso desenfreado está a destruir todo um mundo onde um possível equilíbrio civilizacional seria possível. O grande exemplo são as inegáveis alterações climáticas que estamos a viver, já não são ficção científica. A exibição cinematográfica sendo uma actividade comercial sofre as consequências do desastre económico e social e tenta adaptar-se as estas velhas-novas cidades esvaziadas de população nos seus centros. A deslocação das pessoas para os subúrbios originou os monstruosos centros comerciais, onde vendem quase tudo das salsichas aos filmes. Nesses espaços construíram gaiolas ou caixotes a que chamam "salas de cinema" com uma programação quase sempre medíocre e claro, maioritariamente, oriunda da Blockbuster Hollywood (nada contra, que também gosto muito do cinema norte-americano, mas há mais filmes e cineastas no mundo). Nessas "salas de engorda" onde supostamente só deveriam passar filmes, estes são servidos como um kit de entretenimento, cujo objectivo é facturar e dar lucro, este é o negócio do cinema nos Shoppings.
É nestes Centros Comerciais das periferias urbanas que actualmente e quase exclusivamente se desenvolve o negócio da exibição de filmes e onde o número de "salas" até é considerável, confortáveis e algumas tecnicamente bem equipadas para as melhores projecções.
Porém, esse não é o espaço onde cresci a ver filmes, essas não são as Salas de Cinema do bairro e da rua, quando ir ao cinema era um complemento quotidiano como ir ao Café. Agora, até os Cafés estão a desaparecer e a ser substituídos por coisas trendy, ou melhor dizendo, Cafés trengos e gourmet , todos decorados com o mais plastificado design.

No Porto, as salas de cinema de rua/bairro resistiram mais ou menos até aos anos 90. Agora não há uma. As cidades da área metropolitana praticamente ficaram sem salas comerciais. Para ver filmes há que ir aos Shoppings e já se sabe qual é a programação (salvo raras excepções).
Restam alguns resistentes cineclubes e outras associações que programam nos cine-teatros das suas localidades. Em Lisboa, a não ser que ande muito distraído, as salas de cinema de bairro/rua também estão a desaparecer e claro a crescer os complexos de salas nos Centros Comerciais e em subúrbios. Se retirarmos a programação regular da Cinemateca pouco mais sobra. Surgiu recentemente o Cinema Ideal, veremos quanto tempo vai aguentar, pois sem público não há actividade comercial de exibição de filmes e não sustenta financeiramente a sala.
Um outro fenómeno cinematográfico deve ser considerado, os Festivais, quase todos na capital e mais alguns na "província", são tantos que ainda surge uma nova actividade profissional liberal a de "Festivaleiro" para gáudio dos oportunistas empreendedores deste mundo podendo estender-se aos festivais de música e outros. Nada contra os festivais, a oferta é muita e às vezes, com excelentes programações. Não há é tempo, dinheiro e até paciência para uma concentração massiva e exclusiva.
E o que faz falta para animar os cinéfilos e as comunidades é uma programação regular de filmes no centro das cidades em salas de cinema de bairro/rua. Todavia, os tempos mudaram, por isso kaput, e os nostálgicos são uma minoria insuficiente para manter uma actividade de exibição cinematográfica como no século XX.
Sobre a questão de uma Cinemateca no Porto, já não sei mais o que dizer, a sua existência e importância seriam inegáveis. Mas, julgo que é mais um problema das gentes do Porto e de interesses difíceis de conciliar. Este mundo já não existe sem a internet onde circulam milhares de filmes e onde se diz que fervilha uma suposta cinefilia. Talvez, mas acho que o que existe é mais cinefagia. Contudo, para quem vive longe das cinematecas é o que resta para conhecer os filmes que fazem a História do Cinema. Já que o serviço público de televisão (assim como o de assinatura/cabo) continua sem uma programação de cinema minimamente coerente e exigente. Com tanto filme para ver ainda, e tanto para rever, também recorro à internet e é com tremendo esforço que tento ver um filme num monitor de computador. (A Nova Cinefilia web2.0 - capítulo I)
Troco de boa vontade todo esse "conforto" das salas dos shoppings por uma modesta sala, com simples cadeiras, uma tela generosa e boa qualidade de projecção, se for em película, ainda melhor, assim como a da Cinemateca. Para terminar, ficam estas questões: O Cinema ainda existe? Ou apenas nos restam os filmes? (ver fotografia)
O mundo é o que nós fazemos dele. E acho que é preciso abrandar. Não é possível um continuum crescimento económico ultra-capitalista, nem é necessário. O trajecto que se está a seguir é para a implosão. Regressar à essência das coisas é um dos possíveis caminhos: