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João Bénard da Costa





O website À Pala de Walsh presta uma justa homenagem ao grande cinéfilo João Bénard da Costa que se pode acompanhar no dossier Os Filhos de Bénard.
Como confesso admirador de JBC e do quanto ele ajudou a construir a minha cinefilia, umas vezes em acordo outras não, nunca deixou de ser uma referência por todo um mundo que partilhava com os seus leitores, por isso felicito os organizadores por esta dedicada iniciativa que se espera o mais completa possível.


Aqui fica um fragmento de um texto de João Bénard da Costa com o seu inconfundível e apaixonado estilo.("Há felizmente o estilo. Não calcula o que seja?" - Herberto Helder in Os Passos em Volta)


Cet Obscur Object du Désir (1977) foi o último filme do aragonês Luis Buñuel (1900-1983). [...]
O filme baseia-se num romance de Pierre Louys [1870-1925], chamado La Femme et le Pantin.[...]
Duas actrizes, duas mulheres completamente diferentes: a loura e fria francesa Carole Bouquet e a morena e quente espanhola Angela Molina. [...]
Por puro acaso (como Buñuel contou) o realizador disse ao produtor: «Podíamos usar duas actrizes. Disse duas, como podia ter dito três ou dez, a brincar», contou ainda Buñuel. Mas o produtor tomou-o a sério e assim se fez. [...]
Ao contrário dos receios de Buñuel («vão pensar que são duas personagens diferentes») toda a gente aceitou e muitos até viram o filme sem perceber que a actriz não era a mesma. Foi o meu caso e foi uma das minhas grandes humilhações críticas. Quando vi o filme pela primeira vez, não reparei na diferença e só cá fora, quando gabei a intérprete, a minha companheira de visão me fez observar - atónita, porque consciente do seu estatuto «amador» face ao meu estatuto «profissional» - que não havia intérprete mas intérpretes.
Como confundi eu - que não me considero propriamente ignaro - um ovo com um espeto e Molina com Bouquet? Ainda hoje não sei explicar, mas é rigorosamente verdade. E, para engolir a vergonha, limito-me a aceitar a nada vergonhosa explicação de Buñuel: «É para que vejam que o cinema é uma espécie de hipnotismo.»


Carole Bouquet e Angela Molina

João Bénard da Costa
in "Os Filmes da Minha Vida/Os Meus Filmes da Vida". 
Assírio&Alvim, 2003.