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saltar no vazio em 2014



Passados quase 54 anos, Sebastião Resende e elementos da Flyers Desportus reinterpretaram o célebre "Saut dans le vide", protagonizado em Outubro de 1960 pelo artista Yves Klein (França, 1928-1962) em Fontenay-aux-Roses.
Aconteceu no Porto, no dia 17 de Maio, integrado na iniciativa "Sem Quartel/Without Mercy" organizado pela Associação Cultural "Salto no Vazio" que gere o Laboratório Experimental de Arte / Artist Space, "Sismógrafo" com a seguinte proposta: "Numa cidade pouco propícia a terramotos, vamos apresentar um programa dedicado a diferentes áreas da criação contemporânea: das artes plásticas à música experimental, da literatura ao cinema de autor. A intenção é constituir um corpo de propostas que possam provocar uma consciência crítica num território onde esta urge.
No Sismógrafo existe o desejo de desarticular o conceito de cultura, deslocando-o do seus habituais domínios e entregando-o ao inesperado. Captar a intensidade do presente, potenciar a produção de novos conceitos, por aqui vamos: we few, we happy few, we band of brothers!"


photo (c) Daniel Curval


Se o registo fotográfico e videográfico do personagem que faz o salto é deveras importante, o registo de toda a encenação do acontecimento/performance interessa-me mais, nesta imagem vê-se além do "saltador", a janela da casa donde se realizou o salto no contexto da rua; em primeiro plano a câmara que registou em video o "salto no vazio"; deitada no chão uma fotógrafa a registar o acontecimento num ângulo contra-picado zenital; no último plano da imagem, o edifício onde está instalada a Galeria Sismógrafo; Mais o público e os assistentes que recepcionaram o "saltador" de braços abertos, aqui com uma grande diferença em relação à performance original de 1960 que utilizaram o que parece um lençol, como se documenta nesta imagem:



Aproveito a deixa e replico o post que publiquei em 31 de Agosto 2013 sobre o "Saut dans le vide" de Yves Klein:

um excelente exemplo da diferença entre obra de arte e registo fotográfico, isto é, a utilização da ferramenta câmara fotográfica para registar e fixar uma obra de arte, um concepção artística, que de outra forma não passaria de um happening. Ainda há uma terceira imagem que não se vê, que muito provavelmente não existe fisicamente, mas que se forma mentalmente no cérebro. A fotografia da pessoa que registou com a câmara fotográfica, o fotógrafo que regista a encenação do acto artístico. E assim sucessivamente, num ersatz, impossível de se saber qual é a imagem original, como o mistério do pecado.

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A imagem que fiz em 17 de Maio de 2014 não passa de mais uma camada de análise crítica neste mundo saturado de imagens, e serviu-me de experimentação do registo de um "instante decisivo" absoluto, que me impediu de, realmente, ver o salto em todo o seu esplendor, preocupado em fazer a imagem. Pelo que espero ver o respectivo video da performance publicado no mundo virtual da internet.






a fabulosa imagem que imortalizou Yves Klein
"Saut dans de vide" 1960