unraccord

aqui há gato



um filme de Julie Conte
França, 2013, 52'

Este muito interessante e cinéfilo documentário fez parte da programação do festival indielisboa 2014
e foi exibido na Cinemateca Portuguesa.


sinopse: No filme de Julie Conte, Jean-Pierre Beauviala, o protagonista, é apresentado como “inventor de câmaras desde 1971”. Propondo uma história de cinema, iniciada há quarenta anos em Grenoble, que se cruzou intimamente com a de Jean-Luc Godard (pelo desejo de uma câmara 35mm de características semelhantes à Aanton 7A 16mm, conhecida como “o gato”), a sinopse de Un Chat Sur l’Épaule acrescenta que as câmaras inventadas por Beauviala nos seus ateliês “permitiram um ‘cinema ligeiro, na natureza’. Há cineastas que se lembram. Hoje, já nada é pesado. O mercado está saturado com novos instrumentos. Todos experimentam novos modos de rodar. E Beauviala continua a inventar. A que utopia se mantém fiel?”






Institut Jean Vigo: "Un chat sur l’épaule est un documentaire de Julie Conte. C’est d’abord l’aventure de Jean-Pierre Beauviala, pionnier mondial de caméra-film qui participa à la naissance de la Nouvelle Vague en créant la caméra Aaton, toujours plus perfectionnée, l’une des premières caméras portables, synonyme de liberté. le titre est plus explicite avec un jeu de mots : un chat sur l’épaule est comme un Ch’Aaton sur l’épaule, léger et maniable ! C’est aussi une page de l’histoire du cinéma avec ses incessantes révolutions technologiques : la caméra portable sonne le glas de la caméra- armoire, la caméra numérique sonne le glas de la caméra argentique, l’artisan français qui révolutionna la caméra-armoire est, à son tour, dépassé par les industriels japonais aux caméras de poche aux menus de plus en plus complexes, mettant, eux, fin aux traditionnelles et nombreuses équipes de techniciens. C’est enfin un riche documentaire avec de nombreux cinéastes et extraits de films qui témoignent de cette fantastique aventure ! un premier film qui est un plein succès."


um extracto do filme: link
































texto da folha de sala da Cinemateca


Un Chat Sur L’Épaule, é um daqueles documentários que se inscrevem num "exercício" de memória. São os passos de Jean-Pierre Beauviala que nos conduzem numa história de cinema, que é a sua história enquanto “inventor de câmaras desde 1971”. Jean-Luc Godard, recorrente alusão no seu discurso e amigo de longa data, é chamado à memória deste mundo inventivo de Beauviala, através de um episódio simbólico, o pedido que fez de uma câmara de 35mm, com características semelhantes a uma Aäton 16mm, que ficou conhecida como “o gato”, le chat. Há, inclusive, uma fotografia que nos mostra Godard a ensinar como se usa: ao ombro.





Un Chat Sur L’Épaule, primeiro filme de Julie Conte, tem uma delicadeza e concentração que não se encontra vulgarmente nos primeiros trabalhos. O som minimalista, por exemplo, aproveita a ocasião temática para nos oferecer aquela delícia que é o ruído do mecanismo da câmara de filmar; os depoimentos são montados numa escala harmoniosa: não há frases a mais, não há acessório. Os realizadores que falam da sua experiência com uma câmara ao ombro (Eliane de Latour, Richard Copans, Agnés Godard, Alain Cavalier...) são vozes apaixonadas e aventureiras, que nos contam coisas assim: “perdi os sapatos, mas não a câmara”, “era preciso roubar câmaras, para fazer cinema independente”, “apropriamo-nos da ferramenta para ter mais liberdade, mobilidade”, “podemos fazer tudo: agachar, andar para trás, correr... a câmara tem a flexibilidade, a agilidade, o equilíbrio de um gato”... Mas tudo converge para a questão do desaparecimento desse gato que aquece o ombro e proporciona um lado mágico ao próprio acto de filmar. A nostalgia que nos assalta no princípio do documentário, quando se atravessa um arquivo de películas, com a montagem sonora de vários filmes, é a mesma que toma forma no final. Fala-se da crise do artesão. Diz-nos Beauviala que “não se faz um filme do John Ford num i-Phone”. Jean Renoir não soube o que é um i-Phone, mas numa entrevista dada a Jacques Rivette, sobre o progresso técnico na arte, não fica muito longe dessa percepção das coisas: “Interrogo-me se o nosso progresso técnico não é simplesmente o anunciador da decadência completa. A perfeição técnica não pode criar mais do que tédio.” Fala um artesão da imagem, filho de outro artesão manual da imagem (assim gostavam de ser chamados). Beauviala, nem de propósito, afirma ainda que “tudo o que temos procurado no cinema desde o início é a interpretação, foi isso que os impressionistas inventaram... trabalharam para criar uma distância em relação à realidade”, e é dessa distância artística que nos falava também Renoir.

Beauviala continua a inventar, apesar de um mercado lotado de objectos leves demais, quase imperceptíveis. 
A primeira câmara digital da Aäton foi lançada em Outubro de 2012. Que crença move um artesão numa era como a nossa?


Inês Lourenço



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