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A Leitora





a actriz Miou-Miou interpreta a leitora Constance/Marie


de Michel Deville
França, 1988, 98'






Primeira exibição na Cinemateca em 28 de Maio de 2014.


Michel Deville é daqueles cineastas cuja ligeireza da obra não vingou, de certo modo, o estatuto da sua qualidade. No entanto, essa característica – a ligeireza – constitui-se, no caso, como a “difícil facilidade” que designa um bom cineasta. Prevendo as objecções, o cinema de Deville faz-se rodear de garantias, abriga-se numa espécie de repetição que é, só por si, a condição fundamental do domínio do autor. La Lectrice é um filme exemplar desse princípio: não incomoda, não desperta grandes paixões, mas consegue reunir algum interesse em torno do tema, que é a literatura. E fá-lo com eficácia, tanto nos aspectos mais logísticos como na originalidade da construção narrativa, com abertura suficiente para o insólito. Miou-Miou, a “leitora”, corrobora essa noção do fomento das garantias: «Avec Deville, tout est cousu main, répété maintes et maintes fois, des circonvolutions du texte aux détails du jeu. Avec une base aussi solide que cela, on peut éprouver du plaisir, se laisser aller.»

Baseado no romance de Raymond Jean, La Lectrice [Editado em 1992 em Portugal pela Teorema] faz entrar em cena o próprio objecto-livro como personagem de ficção, ou antes, como mecanismo que despoleta a mise en abyme - a história dentro da história. Com efeito, é no acto de pegar no livro e ler em voz alta para o marido que Constance “passa para o outro lado”, isto é, vê-se totalmente reflectida noutra realidade,  como uma Alice «através do espelho». O seu corpo passa então a ser o de Marie, como, de resto, o rosto sedutor e naive, e - muito importante - a voz. Miou-Miou é a leitora profissional favorita de qualquer ouvinte, sobretudo, dando-se o facto de estarmos a falar de um meio provinciano como aquele que Deville utilizou para cenário exterior do microcosmos fílmico e literário: Arles. De casa em casa, de cliente em cliente, Marie percorre as ruelas labirínticas, tal e qual a criança de Le Ballon Rouge (Albert Lamorisse, 1956), conquanto não leve um balão na mão; aquilo que exibe é um gorro estridentemente azul sobre o cabelo estridentemente loiro, como quem leva o céu na cabeça. E leva mesmo.

As cores têm, na mise en scène  e nos vestuários de La Lectrice, a chave para a descodificação das personagens, assim como os livros e autores que Marie escolhe para a cada cliente (e aqueles que lhe pedem para ler), ou ainda os ritmos diversos da sonata para piano La Tempête, de Beethoven. De Maupassant a Sade, passando por Zola, Tolstoi, Marx, Prèvert, Carrol, Duras, e pelo próprio Raymond Jean, afloram-se excertos que despertam as paixões adormecidas pela vulgaridade quotidiana. A vida das palavras, pela voz de Marie, é o motor da puberdade de Eric, a energia política da viúva do general, o desejo de liberdade da pequena Coralie, a primavera sexual do empresário. A beleza e a sensualidade de La Lectrice está no desvelo dos pormenores: é um marcador com um quadro de Toulouse-Lautrec (“Femme qui tire son bas”) a resvalar da página de um livro.



Inês Lourenço







Femme qui tire son bas, 1894
 de Henri de Toulose-Lautrec




 Le Ballon Rouge (Albert Lamorisse, 1956)
Curta-metragem Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1956.