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Andrei Tarkovski e a essência da arte







Arte - Anseio para o ideal
Andrei Tarkovski
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Por que a arte existe?  Quem precisa dela?  Na verdade, alguém precisa dela?  Estas são questões colocadas não só pelo poeta, mas também por qualquer pessoa que aprecie arte - ou, naquela expressão corrente, por demais sintomática da relação entre a arte e seu público do século XX - o "consumidor".
Muitos fazem essa pergunta a si próprios, e qualquer pessoa ligada à arte costuma dar a sua resposta pessoal.  Alexander Block disse que "do caos, o poeta cria harmonia"...  Puchkin acreditava que o poeta tem o dom da profecia...  Todo artista é regido por suas próprias leis, mas estas não são, em absoluto, obrigatórias para as demais pessoas.
De qualquer modo, fica perfeitamente claro que o objectivo de toda arte - a menos, por certo, que ela seja dirigida ao "consumidor", como se fosse uma mercadoria - é explicar ao próprio artista, e aos que o cercam, para que vive o homem, e qual é o significado da sua existência.  Explicar às pessoas a que se deve sua aparição neste planeta, ou, se não for possível explicar, ao menos propor a questão.
(...)
A arte nasce e se afirma onde quer que exista uma ânsia eterna e insaciável pelo espiritual, pelo ideal: ânsia que leva as pessoas à arte.  A arte contemporânea tomou um caminho errado ao renunciar à busca do significado da existência em favor de uma afirmação do valor autónomo do indivíduo.  O que pretende ser arte começa a parecer uma ocupação excêntrica de pessoas suspeitas que afirmam o valor intrínseco de qualquer acto personalizado.  Na criação artística, porém, a personalidade não impõe seus valores, pois está a serviço de uma outra ideia geral e de carácter superior.  O artista é sempre um servidor, e está eternamente tentando pagar pelo dom que, como que por milagre, lhe foi concedido.  O homem moderno, porém, não quer fazer nenhum sacrifício, muito embora a verdadeira afirmação do eu só possa se expressar no sacrifício.  Aos poucos, vamos nos esquecendo disso, e, inevitavelmente, perdemos ao mesmo tempo todo o sentido da nossa vocação humana...
Quando falo do anseio pelo belo, ideal como objectivo fundamental da arte, que nasce de um ânsia por esse ideal, não estou absolutamente sugerindo que a arte deva esquivar-se da "sujeira" do mundo.  Pelo contrário!  A imagem artística é sempre uma metonímia em que uma coisa é substituída por outra, o menor no lugar do maior.  Para referir-se ao que está vivo, o artista lança mão de algo morto; para falar do infinito, mostra o finito.  Substituição... não se pode materializar o infinito, mas é possível criar dele uma ilusão: a imagem.
O horrível e o belo estão sempre contidos um no outro.  Em todo o seu absurdo, este prodigioso paradoxo alimenta a própria vida, e, na arte, cria aquela unidade ao mesmo tempo harmónica e dramática.  A imagem materializa uma unidade em que elementos múltiplos e diversos são contíguos e se interpenetram.  Pode-se falar da ideia contida na imagem, e descrever a sua essência por meio de palavras.  Tal descrição, porém, nunca será adequada.  Uma imagem pode ser criada e fazer-se sentir.  Pode ser aceita ou recusada.  Nada disso, no entanto, pode ser compreendido através de um processo exclusivamente cerebral.  A ideia do infinito não pode ser expressada por palavras ou mesmo descrita, mas pode ser apreendida através da arte, que torna o infinito tangível.  Só se pode alcançar o absoluto através da fé e do ato criador.
A única condição para lutar pelo direito de criar é a fé na própria vocação, a presteza em servir e a recusa às concessões.  A criação artística exige do artista que ele "pereça por inteiro", no sentido pleno e trágico destas palavras.  E assim, se a arte carrega em si um hieróglifo da verdade absoluta, este será sempre uma imagem do mundo, concretizada na obra de uma vez por todas.  E se a cognição científica, fria e positivista do mundo assemelha-se à ascensão por uma escada infinita, o seu equivalente artístico sugere, por outro lado, um infinito sistema de esferas, cada uma delas perfeita e auto-suficiente.  Esses dois fatos podem se complementar ou contradizer reciprocamente; em nenhuma circunstância, porém, podem anular um ao outro.  Pelo contrário, eles se enriquecem mutuamente e se juntam para formar uma esfera que a tudo abarca e que se lança para o infinito.  Essas revelações poéticas, todas elas válidas e eternas, testemunham o fato de que o homem é capaz de reconhecer a imagem e a semelhança de quem o criou, e de exprimir este reconhecimento.
Além disso, a grande função da arte é a comunicação, uma vez que o entendimento mútuo é uma força a unir as pessoas, e o espírito de comunhão é um dos mais importantes aspectos da criação artística.  Ao contrário da produção científica, as obras de arte não perseguem nenhuma finalidade prática.  A arte é uma metalinguagem com a ajuda da qual os homens tentam comunicar-se entre si, partilhar informações sobre si próprios e assimilar a experiência dos outros.  Mais uma vez, isso nada tem a ver com vantagens práticas, mas com a concretização da ideia do amor, cujo significado encontra-se no sacrifício: a perfeita antítese do pragmatismo.  Simplesmente não posso acreditar que um artista seja capaz de trabalhar apenas para dar expressão a suas próprias ideias ou sentimentos, os quais não têm sentido a menos que encontrem uma resposta.  Em nome da criação de um elo espiritual com outros, a auto-expressão só pode ser um processo torturante, que não resulta em nenhuma vantagem prática: trata-se, em última instância, de um ato de sacrifício.  Mas valerá a pena o esforço, apenas para se ouvir o próprio eco?
(...)
O artista nos revela seu universo e força-nos a acreditar nele ou a rejeitá-lo como irrelevante e incapaz de nos convencer.  Ao criar uma imagem ele subordina seu próprio pensamento, que se torna insignificante diante daquela imagem do mundo emocionalmente percebida, que lhe surgiu como uma revelação. Pois, afinal, o pensamento é efémero, ao passo que a imagem é absoluta.  Pode-se então afirmar que, no caso do homem espiritualmente receptivo, existe uma analogia entre o impacto produzido pela obra de arte e o impacto de uma experiência puramente religiosa.  A arte atua sobretudo na alma, moldando sua estrutura espiritual.
O poeta tem a imaginação e a psicologia de uma criança, pois as suas impressões do mundo são imediatas, por mais profundas que sejam as suas ideias sobre o mundo.  É claro que, ao falarmos de uma criança, também podemos dizer que ela é um filósofo; isso, porém, só pode ser afirmado num sentido bastante relativo.  E a arte se esvai diante de conceitos filosóficos.  O poeta não usa "descrições" do mundo; ele próprio participa da sua criação.
Uma pessoa só será sensível e receptiva à arte quando tiver a vontade e a capacidade de confiar e de acreditar num artista.  No entanto, como é difícil, às vezes, superar o limiar de incompreensão que nos separa da imagem emocional e poética.  Exactamente da mesma forma, no caso da verdadeira fé em Deus, ou até mesmo para sentir a necessidade de ter essa fé, uma pessoa precisa ter certa predisposição da alma, uma potencialidade espiritual específica.
A esse respeito, convém lembrar o diálogo entre Stavrogin e Shatov em Os Possessos, de Dostoiévski:
- Gostaria de saber uma coisa: acreditais ou não em Deus? - Nicolai Vsevolodovich (Stavrogin) olhou duramente para ele (Shatov).
- Acredito na Rússia e na ortodoxia russa... acredito no corpo de Cristo...  Acredito que o Segundo Advento dar-se-á na Rússia...  Acredito... - Shatov pôs-se a balbuciar desesperadamente.
- E em Deus?  Em Deus?
- Eu... eu acreditarei em Deus.




fotograma do filme O Espelho (Zerkalo) de 1975


O que se pode acrescentar a isso?  Trata-se de um brilhante insight do estado de perplexidade da alma, do seu declínio e inadequação, que se estão tornando a síndrome cada vez mais cronica do homem moderno, a quem poderíamos definir como espiritualmente impotente.
O belo oculta-se aos olhos daqueles que não buscam a verdade, para os quais ela é contra-indicada.  Porém, a profunda falta de espiritualidade das pessoas que vêem a arte e a condenam, e o fato de as mesmas não estarem dispostas nem prontas a reflectir, num sentido mais elevado, sobre o significado e o objectivo da sua existência, vêm muitas vezes mascarados pela exclamação vulgarmente simplista: "Não gosto disso!", "É tedioso!".  Não é um argumento que se possa discutir, mas parece a reacção de um cego a quem se descreve um arco-íris. O homem contemporâneo simplesmente permanece surdo ao sofrimento do artista que tenta compartilhar com os outros a verdade por ele alcançada.
Mas o que é a verdade?
Creio que um dos mais desoladores aspectos da nossa época é a total destruição na consciência das pessoas de tudo que está ligado a uma percepção consciente do belo.  A moderna cultura de massas, voltada para o "consumidor", a civilização da prótese, está mutilando as almas das pessoas, criando barreiras entre o homem e as questões fundamentais da sua existência, entre o homem e a consciência de si próprio enquanto ser espiritual.  O artista, porém, não pode ficar surdo ao chamado da beleza; só ela pode definir e organizar sua vontade criadora, permitindo-lhe, então, transmitir aos outros a sua fé.  Um artista sem fé é como um pintor que houvesse nascido cego.
É errado dizer que o artista "procura" o seu tema.  Este, na verdade, amadurece dentro dele como um fruto, e começa a exigir uma forma de expressão.  É como um parto...  O poeta não tem nada de que se orgulhar: ele não é o senhor da situação, mas um servidor.  A obra criativa é a sua única forma possível de existência, e cada uma das suas obras é como um gesto que ele não tem o poder de anular.  Para ter consciência de que uma sequência de tais gestos é legítima e coerente, e faz parte da natureza mesma das coisas, ele deve ter fé na ideia, pois somente a fé dá coesão a um sistema de imagens (leia-se: sistema de vida).
E o que são os momentos de iluminação, se não percepções instantâneas da verdade?
O significado da verdade religiosa é a esperança.  A filosofia busca a verdade, definindo o significado da actividade humana, os limites da razão humana e o significado da existência, até mesmo quando o filósofo chega à conclusão de que ela é absurda, e de que é vão todo o esforço humano.
A função específica da arte não é, como comummente se imagina, expor ideias, difundir concepções ou servir de exemplo. O objectivo da arte é preparar uma pessoa para a morte, arar e cultivar a alma, tornando-a capaz de voltar-se para o bem.
Ao se emocionar com uma obra-prima, uma pessoa começa a ouvir em si própria aquele mesmo chamado da verdade que levou o artista a criá-la.  Quando se estabelece uma ligação entre a obra e o seu espectador, este vivência uma comoção espiritual sublime e purificadora.  Dentro dessa aura que liga as obras-primas e o público, os melhores aspectos das nossas almas dão-se a conhecer, e ansiamos por sua liberação.  Nesses momentos, reconhecemos e descobrimos a nós mesmos, chegando às profundidades insondáveis do nosso próprio potencial e às últimas instâncias de nossas emoções.

 

In "Esculpir o tempo", tradução de Jefferson Luiz Camargo,
Livraria Martins Fontes Editora Ltda., São Paulo, 1990, pág. 38;40-43;45-49.