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Paradoxos da nova cinefilia

Buster keaton


Estes são tempos dos paradoxos cinéfilos. Com a invasão digital sobre o cinema, seja na produção ou na exibição, este abandona o seu suporte mais puro, a película, matriz que lhe permitia registar o tempo e o movimento no espaço num material físico-químico. O tempo media-se em película, tocava-se, sentia-se que era físico o cinema.
O que o digital oferece são massas voláteis de imagens e muitas de síntese, se questões relativas à verdade e à suposta realidade objectiva das imagens que se colocaram ao cinema (e à fotografia) no século passado originaram discussões e ensaios de toda a ordem, com o digital a questão sobre a “verdade das imagens” extrapola a realidade biológica. O digital descarnou o cinema, retirou-lhe a pele que tudo sente. Dizer que o digital é a mesma coisa que a película, que ninguém sente ou observa a diferença, é um tremendo erro de percepção dos filmes. No cinema o “preservativo digital” salva os filmes, mas matou o próprio cinema na sua matriz. O cinema clássico morreu com o digital. Não foram os filmes que morreram, até porque o digital os faz ressuscitar, dos filmes do período do mudo, até aos gloriosos clássicos de Hollywood, o digital, qual Frankenstein, criou os filmes-lázaro, criaturas que agora vivem no mundo da internet, nos computadores e discos externos individuais dos novos cinéfilos.
O que está morto é a manifestação cultural e artística de fazer e ver filmes que fizeram do cinema a grande arte do século XX. Aquela que chegou a todas as pessoas, de todas as classes e a todos os lugares do planeta. O mais popular fenómeno social e cultural do século passado, o cinema. Pensar no conceito “cinema” é saber que ele carrega no seu património genético os filmes em película e as salas de cinema em simultâneo. Com o digital o conceito “cinema” tem de sofrer um upgrade de reconstituição interna do próprio conceito, isto é, continuamos a ver e a falar de filmes, mas onde estão as salas de cinema? E surge a questão: O cinema ainda existe? Ou apenas nos restam os filmes?
A inegável importância das cinematecas e dos arquivos de preservação dos filmes é indiscutível, mas a museificação do cinema é o pior que lhe podem fazer.
Não me parece que seja necessário que a novilíngua neoliberal se apresse a reformular ou mesmo a criar um neologismo para substituir o conceito/palavra “cinema”.
O mundo contemporâneo vive uma enorme revolução tecnológica com a introdução do digital e a internet que enjaulou as nossas vidas, oferecendo algumas vantagens e evidentemente muitas desvantagens. O cinema não poderia escapar à invasão e ao contágio tecnológico. Temos na forma um homem e um cinema diferentes no século XXI, mas as suas essências são basicamente as mesmas, os temas que o cinema absorve da existência humana são praticamente imutáveis e não será o digital que nos livrará da morte biológica. O cinema como as outras artes exerce um mistério sobre quem o recebe, o vulgo espectador. 
Não há aqui nenhum saudosismo, ou a afirmação de que era melhor "no meu tempo", nem tão pouco a defesa de um cinema purista, porém a produção de filmes em película associada à projecção em sala vai definhando enquanto solta o seu canto de cisne até ao kaput final. 
A diferença que o progresso materialista promove e implica nem sempre é para o melhor dos mundos (possíveis) e o auge civilizacional da arte do cinema estará sempre no século XX, com as populares salas de cinema como orgãos biológicos vitais das cidades e a película a fazer de corrente sanguínea para os filmes.
Chegando a esta parte do texto, ao fundo do corredor ouve-se uma voz:
- afinal que queres tu, muito resumidamente?
- quero, num dia universalmente banal, sair de casa em direcção a uma sala de cinema, no centro de uma qualquer cidade, comprar o bilhete para ver um filme, entrar e sentar-me numa simples cadeira, sem pipocas, telemóveis e outros adereços, esperar que as luzes se apaguem, uma cortina que se abra e revele uma grande tela branca e um foco de luz a transportar as imagens mais vivas que a vida. 
Lamentavelmente as salas de cinema estão a desaparecer e com elas o cinema que as criou. 

Para contradizer tudo o escrevi até agora e sustentar a minha tese dos paradoxos cinéfilos, temos necessariamente que aplaudir o regresso às salas de cinema (obviamente nas poucas que ainda existem pelo país) de cópias restauradas dos filmes "Casablanca"(1942) de Michael Curtiz, "Hiroshima, meu amor" (1959) de Alain Resnais e os 17 filmes de Ingmar Bergman programados pela Leopardo/Medeia Filmes. E saudar o ressurgimento e remodelação do Cinema Ideal no centro de Lisboa por parte da Midas Filmes.
Estes filmes e esta sala de cinema são como heróis da mitologia cinematográfica que inesperadamente regressam para nosso contentamento e felicidade.
Porém, sabemos que todos os heróis depressa desaparecem nos sonhos do horizonte. Para reforçar ainda mais o paradoxo actual do mundo do cinema, nunca se escreveu e pensou tanto sobre cinema como agora, dos académicos “film studies” e suas publicações, das ainda revistas em papel e do manancial de publicações online. Dos milhares de weblogs cinéfilos e websites sobre cinema. Festivais, e outros eventos que têm o cinema na sua raiz. Enfim, toda uma panóplia tecnológica e mediática que sustenta uma sociedade cada vez mais espectacular e paradoxal.



Sobre o regresso do filme Casablanca (1942) de Michael Curtiz, clássico dos clássicos, um dos exemplos máximos da potência do cinema como criador de mitos. Para mim, basta-me que tenha a Ingrid Bergman, o Humphrey Bogart e aqueles maravilhosos diálogos, para ser um dos meus filmes da vida. Nunca vi este filme numa sala de cinema, pois não sou assim tão velho, e saber que em 2014 poderei rever este enorme filme de culto da história do cinema é a alegria que precisava para começar o ano. O tempo passa o filme Casablanca cresce e torna-se um dos grandes da arte cinematográfica. 

Para terminar, recomendo a leitura do texto "Teremos sempre Casablanca" de José Marmeleira no Ípsilon (Público) e o texto de Jorge Leitão Ramos no Atual (Expresso) sobre o regresso do filme Casablanca às salas de cinema.





Ilsa Lund/Ingrid Bergman - “…But what about us?”

Rick Blaine/Humphrey Bogart - “We’ll always have Paris. We didn’t have, we, we lost it until you came to Casablanca. We got it back last night.”

Ilsa Lund/Ingrid Bergman - “…When I said I would never leave you…”

Rick Blaine/Humphrey Bogart - “And you never will. But I’ve got a job to do, too. Where I’m going, you can’t follow. What I’ve got to do, you can’t be any part of. Ilsa, I’m no good at being noble, but it doesn’t take much to see that the problems of three little people don’t amount to a hill of beans in this crazy world. Someday you’ll understand that.”