unraccord

Blue Jasmine



(EUA, 2013, 98')





Entrei na sala de cinema com uma adaga nos olhos, pedras nos bolsos e uma migalha de esperança.
Não queria acreditar que um cineasta que tanto admirava, que me acompanhou desde jovem nas aventuras urbano-cinéfilas tivesse perdido o talento nos passeios turísticos pela Europa do postal cinematográfico. Estava certo em continuar a acreditar, Woody Allen é um cineasta renascido nesta comédia dramática "Blue Jasmine". Os últimos filmes de Allen em Londres, Barcelona, Paris e Roma não passaram de petits divertissement, exercícios de recolha imagética, rascunhos para diálogos, esboços narrativos para chegar a este magnifico "Blue Jasmine". Com este filme Allen responde a todas as justas criticas que lhe fizeram, e volta em força com todo o seu talento para filmar e contar uma história do mundo decadente da burguesia norte-americana. Este é o seu mundo, New York a sua cidade e fora deste ecossistema os filmes de Woody Allen não respiram, não vibram, não se contorcem com dores ou sorrisos, não têm nada da puta da vida.
"Blue Jasmine" é um laboratório de emoções in vivo e tem em Cate Blanchett, que deve estar em mais de 99 % das imagens e em cena, uma actriz de uma grandiosidade que até assusta. Sem entrar em comparações, porque são sempre injustas e idiossincráticas, a australiana Blanchett fez-me lembrar a poderosa Gena Rowlands nos filmes de John Cassavetes, com as devidas ressalvas, pois o cinema do casal Gena & John é de uma beleza ferida, rude e crua, isto é, outras películas. A personagem que Blanchett magistralmente interpreta é uma oferta rara de um cineasta a uma actriz, e percebendo que tem um tesouro nas mãos, esta agarra-o com todas as suas forças. Uma interpretação única e possivelmente a melhor de toda a sua carreira de actriz, que muito dificilmente conseguirá ultrapassar com tanta qualidade. A intensidade pedida a Blanchett é imensa e sente-se na sua pele o esforço, os outros actores têm um trabalho de apoio e suporte quase só de acessório. Há muito tempo que não via um filme com uma influência literária tão presente, dos diálogos até ao desenvolvimento narrativo.
Mas esta contaminação literária não deixa o filme doente, bem pelo contrário, Woody Allen serve-se de algumas das técnicas da escrita literária como a analepse de uma forma subtil e fluída, sem aqueles saltos narrativos de montagem em flashback tão típica de um cinema histriônico.
Em "Blue Jasmine" vemos como se conta uma história num filme e que pode ser semelhante a quem lê um livro, pois tudo se desenrola num jogo de emoções fortes aos nossos olhos incrédulos, ao ver como tudo resulta e funciona perfeitamente. Dos ambientes nova-iorquinos burgueses e hipócritas ao cenário de uma São Francisco da classe trabalhadora, Allen é um disfarçado antropólogo de câmara de filmar nas mãos, ficcionando as alegrias e as desgraças da condição humana. Mais uma vez acompanhado de uma banda-sonora jazzy irrepreensível que até nos deixa atordoados. Agora já sabemos, quando Woody Allen andar pela Europa a fazer filmes light, estes são material de recolha para um futuro filme hard, mas nos States e em particular em NY a cidade onde se sente em casa (Ele diz isto nas entrelinhas do filme pela voz da personagem Jasmine/Blanchett). Já sabiamos que era assim, mas nada como esta confirmação que é "Blue Jasmine".
Não considero Woody Allen um cineasta capaz de uma obra-prima - quando revejo os seus filmes maiores e mais antigos, fica a sensação que não quer subir o último degrau da excelência, e coça a cabeça, enquanto olha para cima a rir-se, talvez por conhecer muito bem as obras de cineastas como Ingmar Bergman e outros autores (sim, os autores existem, os filmes não caem do céu, nem nascem na terra baldia) -  nem é preciso que o faça, e gosto disso, dessa atitude simples, cool, sem sobranceria, mas com uma obra imensa, despretensiosa e inteligente, uma entrega apaixonada ao cinema, ao jazz e às grandes mulheres e actrizes.
Bem-vindo Mr. Woody Allen, os velhos cinéfilos agradecem o regresso aos grandes filmes, já os novos não sei.







Correu há uns tempos a noticia que uns filisteus patos-bravos queriam convidar Woody Allen para filmar em Portugal. Eu acho que Allen deve aceitar, temos sol, boa comida e bom vinho e ele ainda ganha uns cobres para fazer outro bom filme de regresso a NY. Porém, espero que escolha a bela cidade do Porto e não a cidade de Oporto.