unraccord

A Magia do Cinema



Quentin Tarantino durante a projecção do filme "Un Singe en Hiver" (França, 1962) 
de Henri Verneuil, com Jean Gabin e Jean-Paul Belmondo.


Estão a ver a face (que não é de book) pueril de felicidade de Tarantino e das pessoas em volta? 
É isto a magia de ver um filme numa sala de cinema. Por isso adoro ver e ouvir os filmes de Quentin Tarantino, porque me devolvem a magia e as emoções da infância (Não porque sejam todos excelentes). Tenho imensas histórias sobre a aventura de ver filmes em salas de cinema. Às vezes lembro-me que as poderia contar, escrever (ainda que mal, ai de mim), pôr em palavras o delírio maravilhoso da infância, paixão que ainda, felizmente, perdura. Mas para quê? Para quem? Se as pessoas abandonaram as salas de cinema. O maldito progresso nunca sabe quando parar. Não me falem de tecnologias, porque não trocaria uma cadeira rota e manca de madeira, o cheiro a mofo, a mijo e a outros fluídos na sala, o frio de gelar os pés no Inverno, o suor a fazer de cola entre a pele e o cabedal do braço da cadeira, os risos e os choros colectivos, os beijos, ai os beijos ao mover das mãos, quem nunca beijou no escuro de uma sala de cinema, sabe pouco da vida.
O atómico feixe de luz por cima da minha cabeça com as partículas de pó no ar eram o meu eterno 2001, esse sublime filme, em que entrei, literalmente, em transe naquela viagem espacial.
O som das bobines a despirem-se na cabine de projecção, a película a gemer no escuro fechado, todos os frutos proibidos estavam ao meu alcance. 15 metros horizontais de tela de cinema eram o meu paraíso na penumbra.
Uma tela grande que me abraçava e para onde fugia deste mundo. Já chorei tanto pelo cinema, já me ri até ao absurdo, já lutei, viajei só para ver filmes, às vezes só por um, dormi ao relento, andei à porrada, fiz inimigos, e alguns amigos. Nas cinematecas sinto-me qual puto nas maravilhosas feiras populares. Faltava à escola para ir ao cinema, abandonava a praia para ir ao cinema e depois voltava para um banho ao final da tarde. Quando na minha terra tinha três salas de cinema, conseguia ver uma meia dúzia de filmes por semana, não era esquisito, tudo o que viesse à rede dos olhos era filme-peixe.
Na idade da parvalheira punha um cigarro no canto da boca e um jornal debaixo do braço para poder entrar nos filmes para maiores de 18 anos. Feito reguila e já dentro da sala ria-me para os porteiros e eles já fartos de conhecerem todos os esquemas da gandulagem. Trocados que tivesse nos bolsos era para ir ao cinema e para os flippers se sobrasse, uma autêntica cinefagia, uma alegre doença, porém, felizmente, livrei-me dela, graças às preces que fiz ao santo do cinematógrafo que para mim, só pode ser Robert Bresson. Projectei filmes em 16 mm em cafés, escolas, numa sala de audiências de um tribunal, imagine-se, e uma vez fui parar à esquadra dentro um veículo da bófia com o projector às costas e a película com o filme de Mel Brooks debaixo do braço. Acrescente-se ainda os filmes na tv (RTP), a minha pobre "cinemateca", surgem os gravadores VHS, estourei com uns 4 à custa de milhares de gravações. Atrevi-me a criar uma Videoteca. Programei durante anos num cineclube e continuo a frequenta-los, ainda são estes que fazem o serviço público de levar o Cinema às comunidades. Organizei sessões especiais de filme-concertos, ciclos de vídeos temáticos, guias de filmes e outras actividades sempre ligadas ao Cinema. Era preciso ler, ler, ler. Tinha de arrumar as ideias na cabeça. Livros e mais livros. Surge o DVD, a internet. A cinefilia renasce no mundo à custa dos benditos piratas. Não desisto, não abandono o cinema, resistirei sempre. Esta é a minha forma despojada de fazer filmes, sei muito bem qual o cinema que me interessa e quanto ao público, sigo a regra de ouro de João César Monteiro "Que se foda". Até há pouco tempo, quando me perguntavam o porquê do nome deste blog, respondia "vejam os filmes de Godard, e depois percebem", enganei-me, não percebem nada, nadinha. Eu não idolatro ninguém, não sacralizo nada nem ninguém, para mim tudo e todos têm telhados de vidro e pés de barro. Este blog, somente tem o nome de Godard, porque queria falar de tudo, uma ousadia à sorte, falando de cinema. Virtualmente falei com o Jean-Luc e ele aceitou ser o padrinho com estas palavras: «Não quero falar de mais nada a não ser de cinema, porquê falar de outra coisa? Com o cinema falamos de tudo, chegamos a tudo.» Isto não significa que não tenha profunda admiração e respeito pela obra de, digamos, uma dúzia de cineastas, onde a obra de Andrei Tarkovski ocupa um lugar muito especial na minha vida. Todas as cicatrizes que guardo não me permitem deixar de ficar indignado com o que fazem ao cinema português, aos seus cineastas e à Cinemateca. Em que outro país do mundo onde um homem de 105 anos que ainda tem vontade de fazer filmes, que tem um enorme reconhecimento universal seria possível acontecer o que estão a fazer a Manoel de Oliveira? Que mais tem de fazer este cineasta para com esta idade e obra ainda ter de pedinchar por uns trocos para fazer um filme? Queimam-se fortunas em festivais que duram os dias das fogueiras das vaidades e não se dá o devido apoio a uma das melhores cinematecas do mundo, a produção de cinema português está em modo "ponto morto", encostam-se numa prateleira à espera de melhores dias, cineastas com imenso talento e com coisas para dizer ao mundo, e permite-se que se encerrem salas de cinema por todo o país. O Porto é a miséria que se sabe e Lisboa vai pelo mesmo caminho. Só com magia se consegue manter acesa a chama da paixão pelo cinema. (frase gasta como o amor).