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A História do Cinema – Uma Odisseia



"Cinéma et vidéo, c'est effectivement la différence entre un livre
qu'on lit et un livre qu'on consulte"
François Truffaut




Mark Cousins


Neste post com mais de um ano já tinha sugerido para a importância do visionamento deste monumental documentário de 900 minutos da autoria do irlândes Mark Cousins, bem como da sua edição em Portugal. 
A Midas Filmes, atenta, acaba de editar em DVD e em boa hora "The Story of Film – An Odissey / A História do Cinema – Uma Odisseia".  Este documentário de 15 episódios funciona como um complemento videográfico do livro "Biografia do Filme"também, do crítico e realizador Mark Cousins. Os cinéfilos e interessados pela história do cinema, quando descobriram que este documentário navegava qual nave espacial #2001 pelo espaço virtual, logo desencadearam uma aventurosa exploração pelo bendito submundo da internet, onde a partilha gratuita do conhecimento é a principal bandeira dos piratas cinéfilos. O principal trunfo do livro e do documentário é a sua característica simples e inovadora de estabelecer relações, cruzar dados históricos, com uma forte intenção divulgadora e pedagógica. Este documentário é a antítese do denso e poderoso "História(s) do Cinema" (1988-1998) de Jean-Luc Godard.  Tem uma abordagem à história do cinema indicada para os iniciados e para os que pretendem uma leitura e visionamento rápidos, (como infelizmente se exige no nosso malfadado tempo) sedutores e justamente enquadrado nas leituras contemporâneas através de monitores, sejam a TV, computadores, tablets ou smartphones. O seu trunfo é ao mesmo tempo o seu grande defeito. À sua fácil acessibilidade de leitura corresponde um queijo na ratoeira, tal como toda a pedagogia feita à boa maneira. O que propõe, e muito bem, Cousins, é o acesso urgente e a difusão pública da história do cinema e das imagens em movimento. E defende que para isso a plataforma onde os filmes, as imagens em movimento são difundidas são um mal menor. Aqui neste ponto, não estou totalmente de acordo. Se a divulgação e difusão massiva do património cinematográfico é urgente, e o serviço público de televisão tem obrigações nesse sentido, o visionamento dos filmes que fizeram a história do cinema não dispensa o seu espaço sagrado, o seu templo, que é uma Sala de Cinema e uma grande tela. O cinema clássico (aqui incluo filmes desde o mudo) foi pensado em termos imagéticos para uma sala de cinema. Desde as obras de D.W. Griffith, passando pelos westerns no Monument Valley de John Ford, ao espaço sideral de Kubrick ou toda a sublime obra de Andrei Tarkovski.  Entregar-me neste post a uma vertiginosa lista de filmes que foram pensados desde a raiz para uma sala de cinema é tarefa que deixo a todos os cinéfilos.
Certamente, poder-se-à encontrar filmes que pela sua genialidade e avanço no tempo foram concebidos de tal forma que agora quando os vemos num pequeno monitor, esses filmes ajustam-se como uma luva, como "A Paixão de Joana D'Arc" (1929) de Carl T. Dreyer. Aqueles belíssimos grandes planos estavam tão à frente do tempo que agora os tomamos como nossos. Julgo que a citação em epígrafe de Truffaut faz uma síntese brilhante da diferença entre o cinema e o video (e todas as suas plataformas difusoras).
Para os cinéfilos coleccionadores esta excelente edição em DVD da Midas Filmes é um maravilhoso presente de Natal. Todavia, há tanta gente que não tem posses para adquirir esta caixa de 5 dvd's por 40 Euros. Todos os apaixonados pelo cinema têm o direito de visionar esta obra documental, pelo que serviço público de televisão seria programar num horário decente este excelente documentário de Mark Cousins.

Para complementar este post sugiro a leitura do pragmático texto de Jorge Mourinha no suplemento ípsilon onde acertadamente diz: "A História do Cinema mereceria ser visto por toda a gente, em todo o país, e seria provavelmente mais eficaz do que um qualquer Plano Nacional Educativo de Cinema. Mostrá-lo em sala é reduzi-lo ao mesmo “gueto” cinéfilo do qual Mark Cousins quis que ele escapasse; lançá-lo em DVD é o pequeno passo, mas o passo-chave, para torná-lo visível a todos."

O texto do ípsilon: Para uma história alternativa do cinema


Recomendável, também, a entrevista de Luís Mendonça a Mark Cousins no site À Pala de Walsh.