unraccord

o poder da solidão


A Rapariga de Parte Nenhuma
La Fille de Nulle Part
França, 2012, 91'


com Virginie Legeay (Dora)

Este plano ao minuto 13 quando uma lágrima rebelde (à la Man Ray) 
se liberta e desce pela face de Dora deixa um homem de rastos.

Jean-Claude Brisseau (Michel)

São precisas 8 cobardes facadas para matar a solidão deste homem. Para uns basta uma, para outros mais. Porém, teve um final de vida encantado. Este não é um filme para todos, a solidão também não. Grandioso é pouco para esta obra sublime. Se não virem este filme, não tem problema algum, foi criado para estar sozinho, é o seu poder. Este filme é a quinta-essência de um cinema despojado e depurado, tudo aqui é apenas cinema no mais alto grau da existência e da criação. Não há malabarismos virtuosos e estetização de pacotilha do belo e do sofrimento humano. Filmado nos limites essenciais do cinema, consegue a proeza de ser quase puro na forma amadora de filmar (daquele que ama o cinema) e que não consegue escapar ao poder da criação, não se preocupando com as menores questões técnicas para criar e deixando os defeitos e as rugas à vista de todos. 
A Rapariga de Parte Nenhuma transpira cinema e cinefilia por todos os poros, mas não de película, (foi filmado em digital HD) esta é a grande ironia do filme ao convocar o grande fantasma da ilusão do próprio cinema através de Méliès e os seus cinematográficos truques arcaicos, o "Vertigo" de Hitchcock, e o fantástico de Cocteau. E como doce-amargo temos aquela memorável e ternurenta conversa na rua entre uma antiga aluna e o professor (Michel/Brisseau) que passados vinte anos lhe recorda o quão importante foi para a vida dela as aulas em que o ouviu falar de Ford e de "Psico". Michel, viúvo há 29 anos, vive num herdado burguês apartamento em Paris, rodeado de livros, discos, posters de cinema e filmes. Tem como única canseira quotidiana a entrega total à pesquisa para escrever um livro que resumidamente nas palavras de Dora é sobre a fé e a falta dela, a ciência na procura de respostas, e o desconhecido. Confronta Freud com Van Gogh e contra ventos e marés maldizentes de metafísicas académicas e livrescas, Brisseau oferece-nos um filme como quem enfia uma adaga, porque ele não acredita, nem tem medo de fantasmas, mas na carne que sangra. Somente, encontro uma pequena falha neste diamante solitário de filme, não vermos um felino a rondar numa sequência, mas Brisseau não é infalível, graças a Deus. Agora que já vi este último opus de Brisseau já consigo entender o Leopardo de Ouro no exigente Festival Internacional de Cinema de Locarno na Suiça, cujo júri era presidido pelo tailandês Apichatpong Weerasethakul ("Uncle Boonmee Who Can Recall his Past Lives", 2010) tem tudo a ver com os fantasmas.

Ora leiam este post anterior sobre Jean-Claude Brisseau.