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Encontros da Imagem de Braga


Não conheço os Encontros da Imagem de Braga deste a primeira edição (1987) mas talvez a partir da 2ª edição, e todos os anos tenho como ritual passar um dia em Braga a ver exposições de fotografia.
Nestes 23 anos de exposições vi de tudo, do muito bom ao medíocre. Mas nunca vi nada muito mau. Os Encontros da Imagem de Braga, são das manifestações culturais mais cosmopolitas, e únicas do género em Portugal, desde que infelizmente acabaram os Encontros de Fotografia de Coimbra, organizados por Albano Silva Pereira. Sempre encarei os Encontros da Imagem de Braga, fundados por Rui Prata (Entrevista no website Arte capital), como uma excelente e atenta mostra contemporânea de fotografia. Nunca esquecerei o ano em que no Mosteiro de Tibães, quase em ruínas, vi uma grandiosa exposição de fotografias de enorme formato a cobrir as paredes dos salões. Fiquei siderado a olhar aquelas fotografias, associado ao ambiente adequado criado pela patine do tempo do mosteiro, criou uma atmosfera que se me entranhou na pele. Ver grandes fotografias a cor, de minas a céu aberto, a tapar paredes em salas e corredores com tectos a cair, buracos no soalho, a madeira a ranger ao toque dos passos em volta, foi tal a pedrada que me tornou viciado nestes Encontros da Imagem (o mais irónico é que não me lembro do fotógrafo desta assombrosa exposição, e gostaria muito de saber quem foi, será que a organização dos Ei me pode dar essa informação?). Ao longo deste tempo em que vi crescer estes Ei também vi a cidade de Braga a evoluir, a tornar-se mais cultural, mais bem organizada. Acompanhei a recuperação do belo Beneditino Mosteiro de Tibães (ainda que tenha saudade das suas ruínas, mas isto é um defeito idiossincrático meu), do lindo e essencial para a cidade Theatro Circo, do surgimento da provavelmente melhor livraria de Portugal, a edénica Centésima Página (isto é um consciente exagero, porque não conheço todas as livrarias do país, mas as paixões nunca são justas), da fundação de excelentes espaços culturais como a Velha-a-Branca, e o fundamental, estrutural e importantíssimo Museu da Imagem, além de novas praças e jardins e uma interessante recuperação urbana, onde destaco o novo edifício GNRation um espaço inteligente e com enormes valências para os criadores e artistas de Braga. Atrevo-me a dizer que Braga é neste momento a grande cidade do noroeste peninsular entre o Porto e Santiago de Compostela.

"Love Will Tear Us Apart" foi o mote do tema Amor e Família dos Encontros da Imagem de Braga 2013, pela primeira vez inteiramente organizados pela fotógrafa Ângela Berlinde, que merecidamente sucede ao pioneiro e fundador Rui Prata a quem endereço os meus sinceros parabéns por ter criado estes Encontros de Fotografia em Portugal. Obviamente que os Ei não são perfeitos, cometem alguns erros expositivos, seja na selecção de alguns artistas representados ou na localização dos espaços atribuídos a uma determinada exposição. Mas estas falhas são preciosas, admiro esta atitude de risco, de experimentação constante e em interacção com os espaços urbanos que a cidade de Braga oferece. Tenho plena consciência do enorme grau de dificuldade, exigência e rigor que implica organizar uma manifestação cultural desta envergadura e qualidade. A criação do prémio DST emergentes é como a cereja em cima do bolo dos Encontros da Imagem. E este ano a instalação da Escola dos Encontros da Imagem na antiga Estação dos Caminhos de Ferro de Braga é o magnifico fruto do excelente trabalho desenvolvido nestes 26 anos.
Sobre as exposições patentes nesta 23ª edição dos Encontros da Imagem de Braga passo a descrever o que foram para mim, numa muito pessoal opinião. Estas são as quatro exposições que destaco do ano 2013:

A exposição que considerei mais, também porque está próxima dos meus interesses e universos fotográficos, é a de Duarte Amaral Netto: "De que nos lembramos quando nos lembramos de nós", além de estar justamente instalada no Museu Nogueira da Silva.


(C) Duarte Amaral Netto


"Urban Quilombo" do fotógrafo Sebastián Liste, é a exposição documental mais importante dos Ei, um ensaio de enorme rigor fotográfico de fazer corar a estética programática e maquilhada de Sebastião Salgado. Ganhou o primeiro prémio DST emergentes de 2012. Poderosas fotografias, que gostava de ver prolongadas no tempo, noutro espaço e noutras cidades.

(C) Sebastián Liste

No Museu da Imagem estavam "Anna & Eve" uma maravilhosa exposição perfeitamente enquadrada com o tema dos Ei "Amor e Familía" e muito bem instalada no espaço correcto e merecido de Viktoria Sorochinski. 


(c) Viktoria Sorochinski

Acho que a recuperação das exposições de rua são fundamentais para colocar os cidadãos e os visitantes de Braga em contacto muito próximo com os Ei, nenhuma pessoa por mais distraída que seja, poderá dizer que não viu nenhuma exposição. Se achei as exposições de Susan Barnett e Lucia Herrero indiferentes mas bem implantadas na Avenida da Liberdade, já a ternurenta e pictórica "Amalthée" de Georges Pacheco merecia outro espaço, mais aconchegado, intimo e interior. E esse espaço existe, é a Casa dos Crivos, ainda por cima de uma época muito próxima da atmosfera temporal (Século XV e XVII) que alude estas belas fotografias. Quanto a mim, esta é a principal falha expositiva dos Ei 2013.

(c) Georges Pacheco


Da exposição que se encontrava no Museu D. Diogo de Sousa, esperava coisa melhor, achei a ideia inicial do projecto muito interessante, mas o resultado final é medíocre, seja ao nível dos conteúdos fotográficos, seja na forma confusa expositiva (aqueles painéis não tinham leitura nenhuma). "Uma Casa Portuguesa Com Certeza" é uma desilusão.
Quero ainda referenciar as exposições de Jakub Karwowski, Ji Hyun Kwon e Tito Mouraz. E o prazer que é sempre ver boas exposições de fotografia no Mosteiro de Tibães.
Para terminar, gostaria de nos próximos anos, voltar a ver exposições no Museu dos Biscainhos, aquele jardim é fabuloso para descansar do périplo bracarense e na Casa dos Coimbras, que considero um excelente espaço expositivo no centro da cidade. Felicito o facto de terem melhorado em muito o Guia de Bolso com todas as exposições e mapa da cidade, só faltando colocar o mesmo em PDF no website dos Ei para que os visitantes de fora possam fazer o download e assim melhor planear o circuito expositivo.
Os Encontros da Imagem de Braga podem ser melhores? podem. Tudo pode ser melhor, desde que não seja perfeito. Os critérios são sempre vários e nunca devem ser imutáveis, e desde que não percam a ousadia, se atrevam a correr riscos, a errar, a confrontar as contradições, a estar atentos à contemporanidade (seja lá o que isso for) e aos outros e com os apoios certos, justos e inteligentes, devemos e queremos contar com estes Encontros para sempre. Já agora, como sinal de esperança para a sua continuidade sugiro que em 2014 a cor da imagem gráfica do Encontros da Imagem de Braga seja o verde. Parabéns a toda a equipa de trabalhadores que organizaram e fizeram os Ei2013. Até para ano.