unraccord

Vontade Indómita





Dos raros filmes em que o título em português "Vontade Indómita" 
é muito mais justo que o original "The Fountainhead".


A partir do livro homónimo de 1943 da escritora Ayn Rand fundadora do sistema filosófico Objectivismo que não é mais do que o capitalismo liberal do "laissez-faire". Segundo a wikipédia: "Rand disse que escolheu este nome porque o termo preferido para uma filosofia baseado na primazia da existência - existencialismo - já havia sido usado." O Existencialismo é outra coisa, como bem nos disse Albert Camus e alguns outros poucos amigos.

E pronto o capital tinha a sua cartilha literária, escrita provavelmente sobre a influência de uns ácidos enquanto lia Nietzsche, ou ingerido uns cogumelos estragados, esta senhora de origens judias e branca russa, certamente também conhecia os efeitos da vodka bolchevique, e emigrada tornou-se norte-americana e guru dos liberais capitalistas. Mas o que interessa aqui é analisar o filme. Antes de tudo, dizer que este é um filme, uma obra cinematográfica, tout-court, que se for apenas visionado em casa, mesmo que num grande ecrã, não se tem a correcta recepção do mesmo, visto que a sua mise-en-scène foi pensada para uma sala de cinema, para uma grande tela. Ver este filme em casa e já que o leitmotiv é a arquitectura, é como tentar meter o Rossio na betesga, não cabe.








Gary Cooper interpreta o personagem do arquitecto 
"idealista e individualista" Howard Roark

O discurso de defesa inflamado, aparentemente ideal e inspirador de Roark
é extremamente perigoso se mal interpretado ou interpretado como "laissez-faire"



"Há milhões de anos, um homem descobriu como fazer o fogo. Provavelmente se queimou na fogueira, que ensinou seus irmãos a acender. Mas deixou-lhes um presente que eles não haviam concebido e acabou com a escuridão da Terra.
Ao longo dos séculos, houve homens que abriram novos caminhos, armados unicamente com sua própria visão. Grandes criadores, pensadores, artistas, cientistas, inventores. Estiveram sozinhos contra os homens de seu tempo.
Cada pensamento novo foi rechaçado... cada invenção nova, denunciada... mas os homens de visão de futuro seguiram em frente. Lutaram, sofreram e pagaram, mas venceram.
Nenhum criador foi impulsionado pelo desejo de satisfazer seus irmãos. Seus irmãos odiaram o presente que ele oferecia.
Sua verdade era seu único motivo. Seu trabalho era seu único objectivo. Seu trabalho, não aqueles que o usaram. Sua criação, não os benefícios que outros derivaram dela. A criação que dava forma à sua verdade.
Ele sustentava a verdade sobre todas as coisas e contra todos os homens. Ele foi em frente, mesmo que outros não estiveram de acordo com ele... com sua integridade como sua única bandeira. Não serviu a nada e a ninguém.
Viveu para ele mesmo... e somente vivendo para si mesmo foi capaz de conseguir as coisas que são a glória da humanidade. Essa é a natureza da realização.
O homem não pode sobreviver, excepto através de sua mente. Ele vem à Terra desarmado. Seu cérebro é sua única arma, mas a mente é um atributo do indivíduo.
Não existe cérebro colectivo. O homem que pensa, deve pensar e agir por si mesmo.
A mente racional não pode trabalhar sob nenhuma forma de coação. Não pode ser subordinada às necessidades, opiniões, ou desejos de outros. Não é um objecto de sacrifício.
O criador se mantém firme em seu próprio julgamento. O parasita segue as opiniões dos outros.
O criador pensa. O parasita copia.
O criador produz, o parasita saqueia.
O interesse do criador é a conquista da natureza. O interesse do parasita é a conquista dos outros homens.
O criador requer a independência. Ele não serve, nem governa. Ele trata com homens pela troca livre e pela escolha voluntária. O parasita procura o poder. O parasita quer prender todos os homens juntos, numa acção comum... e numa escravidão comum.
Ele clama que o homem é somente uma ferramenta para o uso de outros... que deve pensar como eles pensam, e agir como eles agem... vivendo na abnegação, na triste servidão a qualquer um, excepto a si mesmo.
Olhem a história.
Tudo o que temos, cada grande realização... veio do trabalho independente de alguma mente independente.
Cada horror e destruição... veio de tentativas de converter homens em rebanhos sem cérebros, robôs sem almas. Sem direitos pessoais, sem ambição pessoal, sem vontade, esperança ou dignidade.
É um conflito antigo. Tem um outro nome. O individual contra o colectivo.
Nosso país, o país mais nobre na história dos homens... foi baseado no princípio do individualismo.
O princípio dos direitos alienáveis do homem.
Um país onde um homem era livre para buscar sua própria felicidade. Para ganhar e produzir, não render-se e não renunciar. Para prosperar, para não morrer de fome. Para conseguir, para não perecer.
Para ter como sua maior possessão, o sentido de valor pessoal... e como sua maior virtude, o seu auto-respeito.
Olhem os resultados. Isto que os colectivistas estão agora pedindo que vocês destruam... tanto quanto da Terra foi destruído.
Eu sou um arquitecto. Eu sei que se constrói a partir das bases.
Estamos nos aproximando de um mundo no qual eu não posso me permitir viver.
Minhas ideias são minha propriedade. Foram retiradas de mim pela força, pela ruptura de contrato. Nenhum recurso me foi deixado.
Acreditaram que meu trabalho pertencia a outros, para fazer o que quiserem, que tinham direito sobre mim, sem o meu consentimento... que era meu dever servir-lhes, sem alternativa ou recompensa.
Agora vocês sabem porque eu dinamitei Cortlandt. Eu projectei Cortlandt... eu o fiz possível... eu o destruí.
Eu concordei projecta-lo, com a finalidade de vê-lo construído como eu desejei. Esse foi o preço que eu coloquei em meu trabalho. Eu não fui pago.
Meu edifício foi desfigurado pelos que se beneficiaram com o meu trabalho e não me deram nada em troca.
Eu vim aqui dizer que eu não reconheço... o direito de ninguém a um minuto de minha vida. Nem a qualquer parte de minha energia, nem a alguma de minhas realizações. Não importa quem faça a reivindicação.
Tem que ser dito. O mundo está perecendo em uma orgia de auto-sacrifício.
Eu vim aqui para ser ouvido... em nome de cada homem independente que há ainda no mundo.
Eu quis estabelecer meus termos. Eu não quero trabalhar ou viver como alguns outros.
Meus termos são o direito do homem de existir por suas próprias razões."

tradução retirada do blog de Nicholas Gimenes

filme completo no vimeo com legendas em espanhol.
Felizmente, cresci a ver filmes em salas de cinema, onde o vi em todo o esplendor de uma grande tela, este "Vontade Indómita". Não havendo salas de cinema, é para isto que também servem as Cinematecas, para um cinéfilo, e todos os que gostam de cinema, se encontrarem com o mistério, que só uma grande tela proporciona, o mistério do CINEMA.

Post em desenvolvimento, para quando tiver mais tempo e "vontade indómita".