unraccord

esculpir o tempo





Se eu quisesse que o cinema me contasse histórias, não via filmes, somente lia livros, especialmente os de trama policial, ou os de filosofia hermética tipo o "Tractatus Logico-Philosophicus", ou a "Crítica da Razão Prática" para histórias pré-surrealistas romanceadas e para histórias de tom de comédia o "Assim Falou Zaratustra" (livro de cabeceira do fundador da multinacional Zara), para histórias de aventuras leio o mestre Jules Verne, se quisesse histórias dramáticas leria o diário da república. Histórias de terror não são muito o meu género, mas a ler teria obviamente que recorrer dos ensaios académicos dos vultos da economia neo-liberal capitalista. Grandes histórias de alto valor literário, nunca tenho dúvidas (mas engano-me muitas vezes), um livro de banda desenhada.
Na poesia, também não são as supostas histórias líricas ou épicas (exceptuando-se o amigo Homero) que me interessam, nem as metáforas decorativas e enjoativas ou arabescos de virtuosismo de pacotilha. E há tanta poesia no cinema como tanto cinema na poesia.

Se a narratividade linear fosse a única forma de contar histórias com imagens em movimento, e nelas se aplicarmos as teorias da relatividade de Einstein (que ninguém sabe muito bem explicar e entender), não haveria movimento algum. A uma imagem, precede uma outra imagem, a que sucede outra imagem. Parece fácil, mas não é. A ordem matemática de apresentar as imagens não é um algoritmo aleatório ou um simples cálculo somatório para os cineastas que não se limitam a contar histórias. A mise-en-scène e a montagem de planos, campos-contracampos, raccords, planos-sequência, etc. toda a gramática cinematográfica deve ser explorada para evitar a maldita linearidade narrativa de contar uma história. Se queremos cinema, não procuremos as histórias, ainda que elas lá estejam.
Diz a Bíblia, O Livro, essa grande História, que o mundo foi criado em 7 dias (claro que o dia do descanso também conta, foi para contemplar a obra feita). Por sete (7) longas-metragens, um autêntico universo, é constituída a obra cinematográfica de Andrei Tarkovski. O algarismo 7 é comum aos dois criadores. Uma das razões para se considerar da ordem da metafisica o mistério do Cinema. Pеализованный? Não? Não faz mal. Vejam os filmes e sintam Andrei Tarkovski a esculpir o tempo.


7 imagens icónicas para cada sublime filme de Tarkovski (seleccionei estas, mas poderiam ser tantas outras, o difícil é subtrair e não somar, criar imagens que nos deixam em silêncio é privilégio abençoado dos que são escolhidos, e são muito poucos)


A Infância de Ivan, 1962



Andrei Rubliov, 1966



Solaris, 1972



O Espelho, 1974



Stalker, 1979



Nostalgia, 1983



O Sacrifício, 1986




"Porque o destino seguia-nos o rastro
como um louco com uma navalha na mão"

do livro  «8 ícones» de Arsenii Tarkovski


Andrei com o seu pai o poeta Arsenii Tarkovski