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El matador


Num qualquer verão da década de 80 do século do cinema, as férias escolares eram saudavelmente grandes, no mínimo três meses. Não faltava tempo para a brincadeira, para ir à praia, à piscina, jogar à bola, ler e ir ao cinema. Uma alegria completa. Entretanto surge a televisão a cores, e com ela a transmissão em directo do mundial de futebol de Espanha (1982). Acho que vi quase todos os jogos em casa de um amigo vizinho. Foi nesse mundial que também aprendi o quão o mundo é injusto e que a sorte não é para quem a merece. O Brasil tinha uma selecção fenomenal e não ganhou a copa. Foi a Itália. Na minha casa não havia televisão a cores, nem videogravador VHS, que entretanto também invadem os lares das famílias lusitanas, que começavam a fazer crescer a pequena classe média. Em paralelo nascem clubes de vídeo como os cogumelos, era um em cada esquina, a rivalizarem com as putas, elas ganhavam e diziam "fecham livrarias e abrem porcarias, se aindam fossem gelatarias", o politicamente correcto ainda não tinha chegado, só a coca-cola. Tive a sorte e o privilégio de crescer numa cidade com três salas de cinema e de na altura a RTP só com dois canais prestar verdadeiro serviço publico. De filmes nunca andei desconsolado, tive uma infância imensamente feliz. Batem à porta de minha casa:
- então man, que vamos fazer hoje à tarde?
- sei lá. Bola? espera, já tens video em casa?
- já
- ó meu caralho, e só agora é que me dizes. Vamos ver um filme?
- huumm, um filme, mas tá sol
- amanhã também vai estar
- que filme?
- o Matador
- tem um título fixe, é de quê, policial?
- pois tem, mais ou menos, é uma gaja boa que mata gajos na cama, tem umas cenas com ela nua e tudo
- ui, parece mesmo fixe, tu é que és o maluquinho dos filmes, por isso vamos lá buscar a cassete.
tens dinheiro?
- tenho uns trocos que eram para os flippers, e tu?
- também tenho uns trocos, vamos lá
No clube de video:
- rapazes, esse filme não é para a vossa idade
- Quê? foda-se, falta um mês para eu fazer 18
- huumm, ai é, tá bem, pode ser, mas caluda
- fique descansado
Em casa do meu amigo:
- sabes trabalhar com essa merda do video?
- acho que sim
- então mete lá a merda da cassete, que entretanto chega o teu pai e se vê as mamas da gaja, tamos fodidos.
Passam os primeiros minutos.
- foda-se, que seca de filme
- espera, isto já vai aquecer
Primeiras imagens com as mamas da Assumpta.
- ah, agora sim, vai rolar, vai rolar caralho
Mais uns minutos, mais umas mortes.
- afinal, não rola nada de especial
- espera, foda-se, deixa-me ver o filme
Adormeceu. Entretanto, chega o pai do trabalho:
- então, Daniel, a ver mais um filme, é porreiro?
- sim, é fixe, um policial espanhol
- Ele (o filho) é que parece que não está gostar
- ó, é um trengo, que não percebe nada de cinema
- Queres uma sandes de queijo?
- pode ser
E lá consegui ver o filme até ao fim, porque para mim, naquele tempo de iniciação ao cinema, era uma desonra não ver um filme até ao final, genérico e tudo.



Assumpta Serna em "Matador"

Esta pequena história é verídica, o filme "Matador" é de Pedro Almodóvar de 1986 com a bela mulher e actriz, Assumpta Serna (alguém ainda se lembra dela?). A fase inicial da obra cinematográfica de Almodóvar é muito interessante, sarcástica e dava um retrato acutilante da movida madrilena, filmes como "Negros Hábitos" (1985); "Que fiz eu para Merecer isto?" (1984) e este "Matador" (1986), juntamente com as curtas-metragens iniciais, lançaram a carreira de Almodóvar, ainda se aguentou com o "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988) e com "Ata-me" (1990).
A partir daqui, já pouco tem para dizer e começa a repetir-se, e pior de tudo a vender uma fórmula de comédia à lá Almodóvar. Vende que nem churros.
Contei esta história em substituição da crítica que pretendia fazer à espécie de "filme" que é "Os amantes Passageiros" (2013). Chamar de filme é um esforçado favor, aquilo não vale a ponta de um caralho. Não tem um plano em condições, é um foguetório de cores a tentar aumentar o espectro da luz visível, tão colorido que até dá vómitos. Diálogos merdosos e prenhes de clichés. Personagens desenhadas como caricaturas toscas, tem um que parece mesmo o Figo (sim, o da bola) de bigode. Bem, aquilo é o cabaret da coxa reles e se não fosse a elipse final da aterragem do avião (sem o avião só com planos do interior do aeroporto) e a actriz Blanca Suárez, pedia o meu dinheiro de volta. Coño, tio Almodóvar, dedica-te à pesca, pois para o cinema, já não tens nada para dizer. E fico-me por aqui, para não ter que o mandar para o raio que o parta, ou metaforicamente encomendar um matador de bigode mexicano.