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Cinema ao ar livre por José Marmeleira

Introdução:

Este excelente texto de José Marmeleira, inicialmente publicado no ípsilon de 30 de Agosto, não poderia ficar "escondido", (é um artigo bastante importante, pois baliza uma actividade fundamental para manter vivo o mistério do cinema numa comunidade, nestes nossos tempos da decadência das salas de cinema) dos que se interessam por Cinema, nem pelos cinéfilos apaixonados e muito menos por aqueles que julgam que se resolve o problema do Cinema em Portugal convidando Woody Allen para fazer mais um filme-turístico-postaleiro. Não pode haver Cinema em Portugal sem uma rede de salas de cinema, pelo menos uma em cada município, sem uma Cinemateca Portuguesa e ANIM com horizontes ilimitados, sem uma Cinemateca no Porto (ou Casa do Cinema, a nomenclatura é secundária, o serviço a prestar à comunidade do Norte, não), sem um forte apoio a todos os cineclubes em actividade, a todas as instituições que promovem sessões de cinema em sala, em comunidade. E nenhuma destas estruturas servem para nada, sem um forte apoio à produção de cinema Português, sem uma distribuição cinematográfica que apoie o cinema europeu e todos os que não são de hollywood. Sem uma televisão pública com critérios de programação bem definidos e não comerciais. Sem um Ministério da Cultura que perceba de uma vez por todas qual é a sua função num Estado, e qual a sua enorme importância para um Povo. Porque afinal, o que é um Povo sem a sua Cultura? E tudo isto não existe, sem a participação das pessoas, sem o dito público a encher salas de cinema, sem cafés ou gelatarias cheias com tertúlias sobre filmes e cineastas. Sem as pessoas não há cinema e restam-nos apenas os filmes. - Daniel Curval







Por José Marmeleira


Quando ver cinema é uma excepção do quotidiano

Não falta diversidade aos ciclos de cinema ao livre que neste Verão abundam em Lisboa. A Casa da Achada evoca o modelo do cineclube. O ciclo de ficção científica do Campo de Santa Clara recupera o ambiente da sala de estar. E o programa do Fitas na Rua reencena a solenidade da tradicional sala de cinema. Com escalas e os propósitos diferentes, são iniciativas que proporcionam, no espaço público, uma experiência emocionante: ver obras históricas do cinema e ver cinema. Com outras pessoas, em conjunto.

Os carros cortam o Largo do Saldanha num movimento contínuo. E criam um fluxo barulhento, hostil à imobilidade silenciosa dos espectadores que, a dois metros da estrada, assistem à projecção de “O Desprezo” de Jean-Luc Godard. Atentos, enfeitiçados pelo diálogos e pelos corpos que se movimentam nas telas, distraem-se da confusão que os cerca. Estão sentados em cadeiras ou mantas improvisadas e vão ficar até ao fim. Mas também há quem desista, quem saia a meio, para descer a rua ou apanhar o autocarro, deixando para trás o filme que Jacques Aumont apelidou de “monumento funerário do cinema clássico”.
Assim foi uma noite de “Fitas na Rua”, programa de cinema ao livre, concebido por Sérgio Marques, que até ao fim do Verão pretende acompanhar o quotidiano da cidade. Amanhã será a vez de Helzapoppin’, de H.C. Potter (no Largo do Intendente), no domingo, A Rosa Púrpura do Cairo, de Woody Allen (na Alameda D. Afonso Henriques) e nos restantes fins-de-semana chegam Cinema Paraíso (dia 7), O Homem da Manivela (dia 8) e Serenata à Chuva (dia 14). O que representa uma iniciativa como esta, numa altura em que o cinema (contam os números) perde espectadores nas salas tradicionais? Porventura, nada de significativo quando comparável às ameaças mudas que esvoaçam sobre a Cinemateca Portuguesa (não se iludam, para estes políticos é perfeitamente habitável e, portanto, plausível, um mundo sem Cinemateca).
Mas face ao acosmismo crescente, aquele que Hannah Arendt temia, aquele que exige ao homem, prisioneiro no trabalho e no consumo, que se revele apenas no convívio familiar ou na intimidade entre amigos, trazer o cinema para o espaço público talvez mereça mais do que uma saudação simpática. Não têm faltados nos últimos Verões ciclos de cinema ao livre. Uns evocam modelos de divulgação quase desaparecidos, outros reencenam formas de ver cinema, mais intimistas ou respeitadoras de um formato quase secular. Todas assinalam, neste tempo de egoísmo, uma vontade de mostrar.

Uma sala de estar ao livre

Faltam poucos minutos para as 22h no Campo da Santa Clara e uma pequena multidão já se acomodou, na relva e nas cadeiras, para ver “The Fly”, de Kurt Neumann, fita do ciclo de ficção científica organizada pelo café Clara Clara. A seleção é de Mário Valente e inclui filmes como The Blob, de Irvin S. Yeaworth Jr. (4 de Setembro), Terrore Nello Spazio (Planet of the Vampires), de Mario Bava (25 de Setembro) e Phase IV, de Saul Bass (2 de Outubro). “O ano passado já tinha apresentado um ciclo dedicado ao Hal Lewton [produtor de vários de filmes de Jacques Tourneur]. Foi a primeira vez e correu bem, com ambiente descontraído e muita gente na relva. Estes filmes são curtos, uma coisa seca, enxuta, não duram três horas. Podemos estar aqui a ver e beber um copo”. Amante confesso do cinema de género, Mário Valente tem uma vasta colecção de filmes e a amizade liga-o aos donos do Santa Clara. Podemos descrevê-lo como um cinéfilo amador que durante o Verão se transforma num programador informal. Ainda assim sabe que cumpre um papel de divulgação, por mais modesto que seja: “Tirando a Cinemateca já não podes ver estes filmes em nenhum lado, nem nos canais de cabo. Nem têm edição nacional. Podes sacá-los da Internet, mas dessa forma não será uma experiência. Obviamente que isto não é uma sala fechada e o ecrã não tem as dimensões habituais. Mas não é a mesma coisas que ver em casa”. O ciclo não se confunde com outros modelos de programação, tem expectativas e horizontes determinados pela localização discreta do jardim e a clientela habitual da esplanada: pessoas que vivem na Graça ou nos bairros à volta, amigos de amigos e alguns turistas. “Há malta interessada e curiosa, mas não há grande solenidade [nas sessões]. O pretexto é trazer aqui os nossos amigos como se estivéssemos numa sala de estar ao ar livre”. Um ambiente intimista, descontraído algures entre as primeiras maratonas do vídeo e “as antigas sessões nocturnas do Fantasporto”, como lembra Hugo Moutinho um dos habitués do ciclo. De repente, ouvem-se gritos. Serão da mulher do cientista horrorizada com a transformação? Ou das crianças que no parque próximo parecem representar, umas para as outras, a cena projectada? Um miúdo mais velho faz de monstro e persegue-as, mas a maioria dos espectadores já regressou à imagem projectada.
“Isso também acontece aqui, essa interacção com os sons de fora”, revela a escritora Eduarda Dionísio que dirige a Casa da Achada – Museu Mário Dionísio. “Durante a projecção do filme do Jorge Silva Melo [Agosto], um rapaz italiano esteve o tempo todo a ensaiar com a sua guitarra. Não entrava completamente dentro do filme, mas nos silêncios ouvia-se aquela música. E as pessoas do prédio em frente quando têm a luz da cozinha acesa, projectam umas barras na parede. Depende sempre do quotidiano das pessoas”.

Ver obras de cinema não é ver cinema

A parede fica num edifício da Rua da Achada que recebe desde Julho, sempre às segundas-feiras, um ciclo dedicadas às férias, com obras do cinema clássico e moderno; até ao encerramento há filmes de Valerio Zurlini, Jacques Rozier, Takeshi Kitano, João César Monteiro ou Jean Renoir. “Não é muito diferente dos outros ciclos que fazemos aqui. Faz parte da nossa actividade rotineira. No Verão, está calor e há mais espaço lá fora, limitamo-nos a fazer na rua o que fazemos aqui dentro há quatros anos. Isto é como um cineclube que no Verão funciona no exterior”.
A menção ao cineclube não é gratuita. Nestes ciclos, não faltam folhas de sala ou convidados, como António Rodrigues, da Cinemateca Portuguesa, que no dia 19 de Agosto apresentou e comentou Verão de 42, de Robert Mulligan. “Queremos alargar a visão destes filmes”, diz Eduarda Dionísio. “Quase não há cineclubes, com excepção da província. Há a Cinemateca, mas creio que as pessoas não se juntam para ver ao mesmo tempo uma coisa. Mesmo que não falem muito uns com os outros, só a situação de estar ali num lugar improvisada, sem veludos, iluminações especiais, a ver um filme que outros escolheram, pode ser uma excepção ao quotidiano”. Eduarda Dionísio acredita que ver filmes em condições normais de vida é importante. Estes e outros. No caso do ciclo actual, as férias constituem o fundo da maior parte das obras e isso aconteceu porque de facto as pessoas tinham ou começavam a ter a direito a férias, havia férias. A memória da sociedade fala com a da história do cinema. E vice-versa. “Acho que as pessoas devem ter a noção do que foi feito antes. Há coisas que julgam moderníssimas ou que acham que nunca foram feitas. Deviam saber um pouco do lastro das coisas em termos de história, como se desenvolvem, como se contrariam. Isto tem a ver com maneira de as pessoas olharem não só para o cinema, mas também para o mundo. Na minha geração, julgo que isso era mais natural, menos imposto”. Contrapomos com a programação de cinema de qualidade que caracterizou a televisão pública em décadas idas. Não cumpriu ela um papel semelhante? A escritora concorda, mas sublinha um senão. “Isso não é cinema, isso é o audiovisual”. E acrescenta: “Vamos ter uma mediateca com filmes que podem levar emprestados para casa. Mas aquilo que vão ver em casa são obras de cinema, não é cinema”.
Na Casa da Achada o fim da programação de cinema, sobretudo no Verão, é dar a ver de outra maneira. Por isso mesmo, nas longas tardes de Julho, Eduarda Dionísio e a sua equipa esperam pacientemente que se faça escuro antes de iluminarem a parede. “É uma maneira completamente diferente de estar a ver no computador ou na televisão”. Se a experiencia pode ser reproduzida e oferecida, certos hábitos parecem longínquos e dificilmente recuperáveis. “Lembro-me das polémicas que certas exibições provocavam nos cineclubes. As pessoas discutiam os filmes, comentavam-nos. Agora, mesmo aqui, isso é difícil. Querem ir para casa, dormir. Têm que apanhar os transportes. Quando as sessões terminam, começam a arrumar as cadeiras sem ninguém lhes pedir. Mas é importante saberem que há pessoas que estão a fazer este trabalho, que estão mostrar este cinema e a pensar sobre ele”.
Reproduzir a solenidade de uma experiencia
Na sua quinta edição, o Fitas na Rua pretende homenagear as antigas salas de cinema de Lisboa com uma série de projecções situadas à porta dos antigos edifícios, alguns fechados aos filmes (Império), outros desaparecidos (o antigo Monumental). O programa distribui-se pela cidade com obras que falam de cinema. Quanto ao projecto propriamente dito, nasceu no Porto em 1999 com um nome diferente. “Chamava-se ‘Cinema Fora do Sitio’”, recorda Sérgio Marques. “Eu trabalhava na delegação do Porto Inatel e descobri que tinham um equipamento de cinema ao ar livre. Propus fazer uma programação que adequasse os filmes aos locais, fossem estações de comboio, jardins ou quartéis. Essa foi a estratégia. E enquanto toda a gente associava o cinema ao ar livre aos filmes comerciais, aos blockbusters, nós arriscámos mostrar obras que as pessoas habitualmente não procuram nem encontram nas salas”. Em 2009, a ideia desceu a Lisboa e no ano passado exibiram-se filmes nos exactos lugares das suas filmagens (A Caixa, de Manuel de Oliveira, nas Escadinhas de São Cristóvão, ou As Recordações da Casa Amarela, no Hospital Miguel Bombarda). O desígnio, entretanto, permanece o mesmo. “Queremos valorizar o usufruto da sala de cinema como um espaço solene, permitir que as pessoas usufruam dos filmes nas condições técnicas para que foram pensados. A experiência do cinema está a mudar, mas esse momento bonito de empatia com uma tela provoca uma emoção muito especial. Vi duas vezes o Abelha na Chuva [de Fernando Lopes] na televisão, e quando o vi na Cinemateca era como se estivesse a ver um filme novo”.
Embora ao ar livre, o Fitas na Rua faz questão de respeitar a pelicula. Dos nove filmes, só quatro são projetados a partir de reproduções em vídeo e há um projecionista preparado para qualquer interrupção ou pausa imprevista. Distante do cineclube, este é um modelo que pretende sem reservas reproduzir um ritual que, para Sérgio Marques, foi desaparecendo das actuais salas de cinema. E que hoje surge como uma excepção do nosso quotidiano. Onde se pode ver cinema e ver os outros a ver cinema.


José Marmeleira
in ípsilon (Jornal Público) de 30 de Agosto 2013