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Este maldito mês de Agosto


Aquele Querido Mês de Agosto (Portugal, 2008, 147´) de Miguel Gomes




Este maldito mês de Agosto:
Das hordas de turistas parolos, provincianos, ignorantes e rançosos
a entupir as urbes e aldeias.
Dos falsos pedintes e verdadeiros infelizmente.
Das filas nos supermercados e das lojas escravas-mal-educadas chinesas.
Das praias a abarrotar de gordura dos espécimes humanos.
Das bestas bípedes que passeiam outras bestas quadrúpedes como pitbulls e outros monstros.
Das bestas coloridas que organizam, participam e assistem a touradas.
Dos cabrões e cabras que tratam os animais como bibelots e que os abandonam em Agosto.
Do entulho das festas, romarias, ranchos folclóricos, feiras e outras bandalheiras.
Da falta de civismo dos que poluem praias, florestas e rios.
Dos energúmenos que promovem execráveis fogos de artificio.
Dos abomináveis pirómanos que destroem as florestas.
Dos insuportáveis e invejosos "avecs" com o seu linguajar de grunhos, as suas horríveis gaiolas douradas e as suas alardes "voitures".
Dos asquerosos livros, filmes e músicas lançados no Verão que os "bifes" chauvinistas chamam de silly season.
Dos economistas, gestores, políticos, advogados, engenheiros, arquitectos, artistas, jornalistas, doutores e doutoras que fizeram deste "país à beira-mar plantado" um autêntico pântano de injustiças e que roubaram a dignidade da existência a um povo.
Dos pseudo-ilustrados em economia que julgam que o turismo é a solução.
Dos parvenus que rumam todos para o Allgarve.
Dos pseudo-ilustrados filisteus que quando lhes convém a "coltura" é útil. Ah nojo.
Pela inutilidade que é escrever estas medíocres palavras nestas coisas judaica-capitalistas de blogs e facebook e outras plataformas do mundo virtual e desumanizado da internet.
Do estúpido e abjecto serviço público e privado de televisão.
Dos jornais e revistas que vendem e promovem de forma pornográfica o sofrimento dos outros.
Por tudo isto e muito mais (que se me apetecer, irei acrescentando) este inteligente filme se deveria chamar:
"Este Maldito Mês de Agosto".
Contudo, apesar de ter um certeiro olhar irónico, tem também uma condescendência irritante e pequeno-burguesa. Por pouco se salva de ser o filme equivalente ao "portugal dos pequeninhos" e de brincar aos pobrezinhos enquanto se faz cinema. Todavia escapa e bem, equilibrando-se sempre em cima do gume da navalha e agarrando o acaso mostra-o condignamente. No limbo da seriedade está esta docuficção.
Realizado por um cineasta com tiques de "betinho" atreveu-se a um exercício difícil e é nesse esforço, totalmente conseguido, de não cair no ridículo que está a grandeza deste filme. Sem dúvida uma enorme obra do cinema contemporâneo português, um documento cinematográfico quase antropológico da maior importância.