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A Nova Cinefilia web2.0 - capítulo I

fotograma do filme "Le Mépris" (1963)
na imagem Michel Piccoli e Brigitte Bardot


Descobrir por onde começar, eis a questão. Começo então pelos afectos, pelo primeiro livro que li e que me marcou na adolescência, sobre teoria do cinema : "O que é o Cinema" de André Bazin, julgo que não há cinéfilo que se preze que não conheça esta obra fundamental e não a tenha como alicerce na sua mesinha de cabeceira. Não bastam os filmes, é preciso ler, para perceber o que se está a ver. Outras leituras e foram tantas, nomeio de cor alguns nomes: Henri Agel, Georges Sadoul, Rudold Arnheim, Jean Loup Passek, Gaston Haustrate, Edgar Morin, Peter Wollen, Terence, St. John Marner, Jacques Aumont, Michel Chion, Jean Tulard, etc. Voltemos a André Bazin e ao ano de 1951 quando com uns amigos funda aquela que foi umas das mais importantes e influentes revistas de cinema no mundo, la revue jaune "Cahiers du Cinéma", onde se iniciaram os jovens turcos da critica cinematográfica como François Truffaut, Jacques Rivette, Éric Rohmer, Claude Chabrol e Jean-Luc Godard que deu origem à conhecida Nouvelle Vague e à chamada politica de autores. Em paralelo circulavam outras revistas rivais como a "Positif" e a "Image Son", etc. Em 1964 entra para a redacção dos "Cahiers du Cinéma", o critico Serge Daney e com ele o amigo Louis Skorecki, ficam por lá uns tempos e depois saem para o jornal "Libération" para continuarem a escrever sobre cinema. Em 1991, Serge Daney funda a rigorosa revista de cinema "Trafic". Pela redacção dos "Cahiers du Cinema" vão passando Serge Toubiana, Thierry Jousse, Antoine de Baecque e Charles Tesson até 2001, ano em que deixei de comprar a revista, achei que estava a fazer demasiada publicidade a cosméticos e cabeleireiros. Mas as leituras não terminaram, comecei a interessar-me pela inglesa "Sight and Sound" editada pelo BFI, e pela norte-americana "Film Comment", entre outros vários títulos avulsos. Entretanto surge a revista "Les Inrockuptibles" de inicio mensal, a melhor fase e depois semanal, ainda a comprei durante uns tempos e depois também deixei de o fazer. Tornou-se demasiada abrangente. As análises só em revistas e jornais não me bastavam, virei-me para os livros de Walter Benjamin, Gilles Deleuze, Andrew Tudor, John Berger, Roland Barthes, Jean Mytry, Denis Huisman, Jacques Rancière, Slavoj Zizek, Susan Sontag, Christian Metz, Jean Louis Schefer, Giorgio Agamben, etc. há sempre mais, muito mais. Dos portugueses destaco sem qualquer dúvida os livros e artigos em revistas de João Mário Grilo, ele nem precisa de escrever mais nada sobre cinema, nem de fazer mais filmes, basta aquele filme sublime de 1992 que é "O Fim do Mundo", está lá tudo do que é uma grande obra cinematográfica, então aquele plano final é assombroso. (Para quando uma edição DVD deste filme juntamente com os outros três da série "Os 4 elementos"?).
Mas, também, os belos textos de Jorge Silva Melo, as análises inflamadas de João Botelho, e os apaixonados textos do mestre João Bénard da Costa, que a partir de uma pintura era capaz de fazer as análises mais maravilhosas, a leitura de um texto de JBC é como se estivéssemos a ler uma narrativa, um conto, uma história, que saudades das suas crónicas semanais nos jornais. Não conheço, nem sei se Eça de Queiroz alguma vez assistiu a um filme numa sala de cinema, se escreveu algum texto sobre esse invento "o cinematógrafo" que espantou a sociedade popular da época, ele morreu em 1900, o cinema tinha 5 anos. Se escreveu seria de certeza um prazer poder conhecer esses textos com a classe da escrita queiroziana. Todavia, outros grandes das letras portuguesas escreveram sobre cinema como José Régio, Jorge de Sena, Eduardo Prado Coelho, Herberto Helder (tem um texto lindíssimo aqui) e críticos como Henrique Alves Costa e Luís de Pina, José Augusto França e seu fascínio pelo genial Chaplin, sem esquecer Eduardo Geada. Mas há muitos mais, não é minha tarefa enumerar todos, e que me desculpem os que não estão aqui e justamente merecem, mas isto é apenas um blog, que apenas pretende passar a paixão pelo cinema. (post: cinéfilos passadores)
Temos ainda textos sobre a arte do cinema e análises de filmes por cineastas como João César Monteiro, Robert Bresson, Andrei Tarkovski, Serge Eisenstein, Pier Paolo Pasolini, Martin Scorsese, Wim Wenders, Luc Moullet, o casal Straub, de François Truffaut, do grande pensador das imagens Jean-Luc Godard, de Roberto Rosselinni, etc, mas há mais, há sempre muitos mais.
Há ainda as magnificas edições das Cinematecas de catálogos dedicados a cineastas e a ciclos de cinema, onde a Cinemateca Portuguesa figura entre as melhores, pois tem edições excelentes, sejam ao nível de conteúdo como de grafismo. Mais recentemente leio textos de Geoffrey Nowell-Smith, Mark Cousins, Adrian Martin, entre outros. E vejo documentários sobre cinema e cineastas. E claro os filmes, rever é o que se calhar tenho feito mais, alguns filmes e cineastas crescem e outros que até os considerava deslizam na minha escala de valores cinematográficos. Os clássicos são inatacáveis, por isso são clássicos. Como qualquer outro cinéfilo tenho os meus cineastas favoritos, os meus cult movies e as minhas vertiginosas listas.
E só ver filmes e ler sobre cinema também não me chegava, foi preciso ir à literatura, à arte, à pintura, à fotografia e à poesia. Para mim o que está mais próximo do cinema, quase que se tocam, sendo tão distintos na técnica é a poesia. Alguns cineastas perceberam isto muito muito bem, e para mim, o que esteve mais próximo desse encontro transcendente foi Andrei Tarkovski.
E depois, quem é que nunca escreveu um medíocre texto ou um reles poema sobre o cinema ou um filme? Por essa razão a proximidade, a afinidade electiva entre cinema e poesia é imensa.
O cinema não é o equivalente da obra de arte total, longe disso, vá de retro Satanás, esse conceito wagneriano e tão perigoso, tal como o outro da "vontade de poder" e do "super homem" de Nietzsche, que como se sabe foram tão mal interpretados, ou pior, foi a interpretação pretendida, que caucionou e que contribuí para as tragédias e barbáries da primeira metade do século XX. E que levou T. Adorno a colocar a questão se se poderia voltar à poesia, depois de ler Paul Celan que passou pelos campos de concentração. Já falei deste assunto neste post.
Mas do que ainda não escrevi é que se admiro a obra e a atitude na vida do cineasta alemão Fritz Lang, que convidado para dirigir a UFA nazi, se apercebeu qual o presente envenenado que lhe estavam a oferecer e rapidamente embala umas malas e embarca para os EUA onde continuou a sua excelente carreira. Existiu uma senhora de nome Leni Riefenstahl que não recusou o convite e que fez das obras mais esteticamente evoluídas para a época, e que ainda hoje empolga alguns cidadãos. Quanto a mim, são filmes perigosos e abjectos naquela ultra-estética, associada a uma atitude na vida imperdoável e covarde ao sempre negar a sua colaboração.
Tanta obra de arte importantíssima que as tragédias fizeram desaparecer, que o tempo apagou da humanidade, que se algumas obras deixarem de existir não se perde nada, é menos entulho no mundo. As questões da memória, do arquivo, da preservação das imagens em movimento, evidentemente que têm de ser consideradas, mas o acesso a essas obras deve ser muito bem contextualizado para que os mesmos erros e de novo por más interpretações não se voltem a repetir.
Por esta e outras razões é que considero o filme "Inglourious Basterds" (2009) de Quentin Tarantino uma verdadeira obra-prima. Devolveu-me a magia do cinema, aumentou-me a paixão, vi a justiça ser feita até à catarse e é tremendamente cinéfilo.
Todo este paleio até aqui, toda esta extensa e fastidiosa nomeação de autores, não é para me armar em bailarino, que não sei e nem quero aprender a andar em pontas ou em bicos de pé. Isto é um blog e não pretende ter nenhum rigor e linguagem académica. Serve mais para mim do que para os eventuais leitores, para organizar as minhas ideias sobre o que é a  cinefilia e este novo movimento cinéfilo da web 2.0. Faço esta reflexão aqui, usando desta forma o mesmo ambiente de comunicação, ajustado a esta nova linguagem do hipertexto, e recheado de links que remetem para outros sítios para informações complementares, significa que este texto nunca estará concluído e que vai sofrendo alterações e actualizações. Este será o capítulo I. Veremos se tenho tempo e se me apetece continuar para outros upgrades na reflexão sobre a cinefilia.

E pronto, cheguei à palavra que interessa: "Cinefilia". Este movimento nasce em França em 1944 e segundo Antoine de Bacque termina em 1968. Na sua obra "La Cinéphilie - Invention d'un regard, histoire d'une culture 1944-1968" (Ed. Fayard, 2003) o historiador e critico de cinema De Baecque faz um retrato histórico e rigoroso sobre este movimento e os seus principais intervenientes e fundadores. No jornal "Libération" escreveu em 2005 um interessante artigo intitulado "La nouvelle bobine du Cinéphile". Antoine de Baecqueestá também associado na redacção da revista de cinema Vertigo.
"Cinéphiles et Cinéphilies" (Ed. Armand Colin, 2010) de Laurent Jullier e Jean-Marc Leveratto é outro livro altamente relevante, um estudo de base sociológica e histórica sobre o conceito de cinefilia e da sua cultura até aos nossos dias, com a introdução das novas tecnologias no acesso e na difusão dos filmes. Agora que vivemos os tempos da internet em toda a sua glória, explodiram pela rede milhares de blogs sobre cinema, centenas de websites sobre cinema como o excelente "Senses of Cinema" e outros onde se podem ver filmes em streamimg como o MUBI, dezenas onde se podem fazer o download de filmes que estão no domínio publico e alguns onde se faz o download pirata de filmes. Em simultâneo são criadas revistas de cinema de leitura online, e destas destaco a espanhola Lumière, a brasileira Foco, a australiana Rouge e a portuguesa plataforma de cinema "À Pala de Walsh". Pelas redes sociais como o Facebook proliferam grupos de discussão e de partilha de ideias e conteúdos sobre cinema. Parece paradoxal, mas julgo que o cinema nunca esteve tão vivo, apesar de as salas encerrarem, de os apoios para a Cinemateca Portuguesa estarem a ser reduzidos, de a distribuição de filmes ser absurda e quase só se exibir filmes de entretenimento norte-americano. Maleita bem antiga esta, e que não é só portuguesa, afinal o cinema é a primeira força invasora norte-americana seja em termos económicos ou culturais.
Na blogosfera e na internet em geral nasceu no século XXI um novo movimento: A Nova Cinefilia.
Em 1978, surge um polémico texto nos "Cahiers du Cinema" da autoria do critico Louis Skorecki, tem como título "Contra a Nova Cinefilia". É um texto de leitura oportuna nos tempos do ressurgimento de uma nova cinefilia esta da web 2.0.
Há umas semanas atrás o site "À Pala de Walsh" publicou em boa hora uma tradução de um outro texto célebre de Louis Skorecki "Raoul Walsh e eu". Faltava a tradução do polémico panfleto "Contre la nouvelle Cinéphilie", pois bem a revista online Lumière #4 acaba de o publicar traduzido para espanhol. (texto nas páginas 234 a 259)
A edição do livro com estes textos em francês, julgo que está esgotada. É de enaltecer que estas revistas online e plataformas de cinema façam este excelente trabalho de divulgação de textos fundamentais para a teoria e estética do cinema e da análise de filmes. Os novos cinéfilos e os velhos só podem agradecer. Ainda sobre Louis Skorecki, o critico mantém um blog pessoal, e escreve juntamente com o cineasta Luc Moullet uma crónica na revista que muito gostaria que tivesse uma aplicação para ler online a SO FILM. Também realiza e produz filmes e escreveu ainda um polémico livro em França "Il entrerait dans la légende" (Éditions Léo Scheer, 2002) Prémio Sade. Ver este livro traduzido e editado em Portugal era sinal de que ainda há editores atentos à literatura que interessa.


o crítico e escritor Louis Skorecki
 (c) fotografia de Sylvain Marchou





Texto "Contra a Nova Cinefilia" de Louis Skorecki na Revista Lumière #4, páginas 234-259
http://www.elumiere.net/numeros_pdf/Lumiere_num4.pdf


Texto "Raoul Walsh e eu" de Louis Skorecki no website À Pala de Walsh:
http://apaladewalsh.com/2013/05/13/raoul-walsh-e-eu/


Dossier Raoul Walsh no website À Pala de Wash:
http://apaladewalsh.com/category/dossier/


Dossier Alan Dawn na revista Lumière:
http://www.elumiere.net/especiales/dwan/indexdwan.php


Dossier Leos Carax na revista Foco Cinema:
http://focorevistadecinema.com.br/