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Bárbaros à civil





Portugal, cabo da Roca, o ponto mais Ocidental da Europa
Latitude 38º 47' Norte Longitude 9º 30' Oeste Altitude 140 m sobre o mar

Fotografia (c) Daniel Curval

"Contaram-me que este episódio se passou durante o período da recruta com alguém que cumpria o Serviço Militar Obrigatório. Decorria a tradicional semana de campo, actividade habitual neste tipo de obrigatoriedades. Farto de obedecer às constantes ordens do instrutor e dos exercícios propostos – o mais famoso era o “queda na máscara” que consistia em atirar-se rapidamente para o chão à dita ordem -, um recruta, num momento de pura inspiração, levanta-se após o tal repentino mergulho para o matagal, atira a arma violentamente para o chão e diz: “Foda-se, não brinco mais. Vou-me embora.” Virou costas e caminhou calmamente em sentido contrário.
Regularmente convém lembrar às mentes mais torpes de como tudo isto começou. A traço grosso e saltando etapas. Os povos após terem vivido durante milhares de anos em grupos mais ou menos reduzidos e depois de abandonarem uma vida de nomadismo misto de transumância, fixaram-se numa determinada área. Contudo, continuaram a viver em pequenos grupos bastante separados uns dos outros, consumindo apenas o que produziam: agricultura e pecuária rudimentar. Sempre que alguns dos grupos vizinhos passava um período de fome atacava o outro. O mais forte e astuto (e muitas vezes desonesto) vencia. Era a barbárie. Cada um pensava apenas em si e na sua sobrevivência. No entanto, grupos houve que se concentraram num único local, viviam muito mais próximos uns dos outros, aumentando assim a sua capacidade de defesa. Como não podiam produzir todos os mesmos produtos, as profissões foram-se diversificando e especializando, a economia deixou de ser troca por troca, criou-se uma moeda para esse efeito, apareceram os impostos que seriam aplicados no melhoramento desse espaço e na defesa dos seus habitantes, ou seja, surgiram as cidades. Deu-se assim início à civilização. Por esta altura, decidiu-se também que seria necessário eleger os representantes dessa população e que estes ficariam encarregues de gerir, administrar, aplicar a justiça, organizar a defesa desse espaço e de todas as outras questões que fossem surgindo diariamente. A Pólis muito basicamente surgiu assim: da necessidade de governar o espaço público, a cidade, isto é, a civilização. Ora, quando esses representantes/governantes não aplicavam os impostos ao serviço da comunidade, mas pelo contrário, era utilizado em causa própria, era o caminho para a barbárie. A cidade ficava mais sujeita a ataques exteriores, a própria população ia deixando de se identificar com os seus representantes. Era mais fácil para os seus inimigos invadir e ocupar esse território. As consequências mais nefastas dessa invasão sobravam sempre para os mais desprotegidos.
O que se está a passar em Portugal não é assim muito diferente. Vivêssemos nós uns séculos atrás e seria muito fácil a um qualquer país ocupar este rectângulo. A população não reconhece qualquer legitimidade aos seus representantes. Deixaram de governar para o seu povo (que o elegeu) e passaram a governar para uns quantos poucos. Ora, quando nos tentam incutir  a competitividade como modelo, por outras palavras, vence o mais astuto, o mais forte e, o mais das vezes, o mais desonesto, caminhamos a passos largos para a barbárie referida anteriormente. A civilização floresceu, porque todos cuidavam de todos, mas quando apenas se cuida dos mais fortes, regredimos historicamente para o período selvagem. O mesmo acontecerá à Europa como espaço organizado numa União. Desta forma, quebrar-se-ão os elos que unem os povos que a compõem. Vencerá o mais forte. Mas como vivemos numa economia global, o mais forte na Europa não sairá vencedor. Neste planeta global existem outros mais fortes. De momento, os ventos sopram de Oriente que não tem histórica, nem culturalmente, qualquer afinidade com os povos europeus. Quando defenderem a competitividade como modelo, não se esqueçam que o mercado é global, já deixou de ser local ou regional. A escolha é simples: a civilização ou a barbárie. E muito cuidado com os bárbaros que trajam à civil."