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Avenida Brasil, caraca!



E aí galera! vamos com calma, você vai ficar confuso. Porque não vai saber se pode aplaudir, ou se pode mandar pedra. Caraca! pô, bró, que vamos fazer Felipão? Ver novela, ou ver futebol? As duas coisas digo eu, pois é do que há de melhor no Brasil. Quem me conhece, sabe que eu não sou daqueles portugas que diz que tudo que vem do Brasil é bom, né. Tem alguns aqui, que até lixo idolatram, se vier do Brasil é bom. Que parvoíce. Sejamos rigorosos, reconheço enormes talentos e personalidades brasileiras nas artes, na vida, na politica (admiro, com todos os defeitos o Lula da Silva), no pensamento, no povo, mas não me babo com a delico-doce Bossa Nova (não mexe comigo, que foi há problemas?), o samba irrita-me, adoro o Chorinho, o Tom Zé do tropicalismo, o Chico Buarque, o Caetano Veloso, a Calcanhoto, essa linda Adriana que como eu não gosta do bom gosto nem do bom senso bacoco, nem do politicamente correcto, nem da etiqueta de salão, e tantos outros músicos, o Tom Jobim assim-assim, admiro o cinema de Glauber Rocha, João Pedro de Andrade, e mais uns quantos. Como todas as culturas tem coisa boa e tem coisa de lixão. O que o povo brasileiro tem que mais admiro e isto é uma generalização, eu sei, é a sua paixão pela vida, o riso perante a tragédia, o bola prá frente que a vida são dois dias, rapaz. Irmãos do Brasil, se um dia eu for aí, marcamos encontro num boteco para beber um chope, falar de futebol e de mulher bonita, tipo "você me mata".

Em nenhuma cultura aprecio e valorizo o exótico, o bizarro, o folclore, evidentemente que o artesanato reconheço. Penso que são as pessoas que fazem a cultura de um povo e não um Estado, ou governo que se aproveita em função dos poderes instituídos, da cultura, ou para a reduzir a nada, não percebendo ou percebendo (e aqui é que é perigoso) o alcance da dita, ou a sobrevalorizar hipocritamente o que tem, e que não vale a ponta de um pintelho, tornando-a parola e tacanha, tipo esculturas XXL e barcaças azulejadas a cantar o fado enquanto navegam para Veneza, e no pior dos casos utilizar a cultura como propaganda politica e de mercado para sustentar essa coisa das indústrias culturais (que é o mesmo que o Capital na cultura, mas eu não percebo nada disto, e os bancos não são nada subsidio-dependentes, pois não?).

E depois, I am European and proud of it, e muito New Yorker (sem lá ter metido os pés, no money para viagens transatlânticas) graças a muito bom cinema que vem dos states filmado naquela que é para o pós-cineasta-turístico Woody Allen a capital da Europa, Nova Iorque. Em que ficamos então? No Brasil, nesse adorado país irmão, porra, estou aqui para falar bem alto e em bom som do admirável produto cultural brasileiro mais conhecido no mundo: a telenovela.
Eu já tinha postado umas coisas nesse (des)admirável mundo novo das relações humanas que é o facebook, mas caraca!, quando ouvi esta palavra pela primeira vez na novela, adorei, love it, <3 (esta é para estar de acordo como o novo AO) ela é o equivalente da oralidade do "caralho" em Portugal e do italiano "Cazzo" (leia-se "catzo" que isto de palavras fálicas tem que se ter cuidado com a língua), agora que Avenida Brasil está a acabar merecia ser arquivada como uma boa memória neste blog que roubou o nome a Godard. E que por isso, consideraram o baptismo pedante, e eu a assobiar pró tecto. Uatafak! why not? até JLG quis filmar o tour de France, (não conheço imagens, só li sobre isto) com uma câmara e os pulmões às costas em cima de uma bicicleta, pois, o Godard é conhecido por ser um irascível arrogante que apenas se atreve a pensar com imagens. Eu, e ainda bem, sou apenas um cinéfilo de reconhecido mérito em Marte, na Terra sou um triste e ilustre desconhecido que só lhe apetece divertir e partilhar algumas das minhas paixões, [só] tão só isto.
A arte é tudo o que está ausente entre os "ismos" e os "pós" que alguns vêem e depois conseguem pensar, dizer, fazer coisas boas, os outros, os que não não vêem nada escrevem uns ensaios e são curadores de queijo.

AVENIDA BRASIL é uma telenovela brasileira que me surpreendeu pela sua contemporaneidade.
Tem um bom argumento, excelentes actores como é habitual nas telenovelas brasileiras, e esta é a grande surpresa, é exemplarmente bem filmada, muito bem realizada e editada. Quem a produziu sabia bem o que estava a fazer em termos de produto audiovisual, um exemplo que se encontra logo em apenas breves minutos de visualização é a luz, a iluminação, que é mais próxima do filme, do cinema, do que da série ou da telenovela para televisão. Os planos com câmara à mão, planos de conjunto harmoniosos, rigor no enquadramento, campo-contra-campos do melhor, e toda a gramática da linguagem cinematográfica está nesta excelente telenovela. E pasme-se, ouvi em algumas deixas, os personagens a citar nomes de cineastas como: Kiarostami, Truffaut, Godard e Hitchcock. Aí, o meu ouvido estremeceu, que é esta merda? estes brasucas são os maiores, Uatafak! (thanks, MCSfor the new word) estava agarradinho a esta novela a partir daí. Nomes de artistas plásticos vários. Referências politicas e sociais, como a crise financeira Europeia e Norte-Americana. Tudo num cenário da periferia do Rio de Janeiro, no Bairro do Divino (que nem sei se existe mesmo). Futebol, mulheres bonitas, crime, corrupção, miséria, vingança, humor, e mais humor, muito humor e inteligente. Boa música, ouve-se Lana del Rey, Marisa Monte, tem de tudo que é bom. Que mais se pode pedir a uma telenovela?
Poesia, dizem, falta-lhe poesia. Ai sim, tomem lá poesia da Mona Lisa, a cabeleireira "parece-me que esta gente não sabe que vai morrer / que vai feder" e anda tanta gente armada em poeta. Golaço da Mona Lisa de mãos na cintura.
E até o chico-esperto do Leleco consegue umas pérolas negras "se a inveja matasse, não havia cemitério que chegasse". 


Bem, isto é apenas um texto num blog, mas passemos para um tom mais sério, num jornal de "respeitinho" insuspeito (ei, que estou "Guided by Voices" - um banda rock dos states, não conhecem, pois deviam) o meu PC (quando estiverem a preços para pobres e não para fundamentalistas de seita religiosa, também quero uma maçã informática) rosna quando teclo a palavra "respeitinho", e que às vezes no seu suplemento ípsilon consegue fazer poker à concorrência jornaleira, encontrei um excelente texto sobre esta adorável novela "Avenida Brasil". Anexo a este post uma imagem de um artigo de António Pinto Ribeiro, uma análise sobre a vertente sociológica e politica que esta novela problematiza. Saiu no Jornal Público, no suplemento Ípsilon em 21 de Dezembro de 2012. Foi o único senhor que reflectiu (e tem feito regularmente e bem sobre outros assuntos nesse suplemento) sobre este produto da televisão popular e por isso tiro-lhe o chapéu, que este não é palerma, ao contrário de muito bói-cultural, bem pelo contrário. Adiante, fréres de la résistance. Ficam os meus parabéns por remar contra a corrente e contra as modas impostas pelos opinion-makers. A telenovela está a terminar. Não imaginam o que perderam. Sem algum tipo de preconceito, assumo que a acompanhava sempre que podia, e divertia-me imenso. Televisão bem feita e para o povão que não é parvenu, ( esta palavra aprendi com o António Guerreiro, numa critica no ípsilon a um livro, é o equivalente do novo-rico em portuguêsuso as palavras como os putos os brinquedos, mas rapidamente me canso delas, deito-as fora, esmago-as com um pé e cuspo em cima delas, como um bom Árabe, com esta acontecerá o mesmo). Este texto vale o que vale, é até demasiado grande para um post num blog. Obrigado se vieram até aqui na leitura. O Goethe, que não era parvo nenhum, dizem, que dizia que todos os dias tinha de ler pelo menos um poema. Esse grande alemão, se fosse vivo nos dias de hoje, morreria de imediato neste nosso tempo da velocidade, do multitasking, e de novas escravaturas high tech, teria um colapso nervoso, era certinho. Eu cá gosto mais do dolce far niente, do low profile, com um livro, um filme e um disco sempre que posso, coisas que já me dão muito trabalho, porque só tento, tentar perceber o que é o mundo. É isto.



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