unraccord

sobre a exibição de um filme em Portugal em 1973

É desta forma que se manifesta o poder da arte e do cinema.


"17 de Novembro de 1973 foi a noite da mais memorável sessão de cinema do meu filme da vida. Nunca tive outra igual e duvido que venha a ter. Passou-se, ou fixou-se, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian e o filme projectado na tela chama-se Roma, Città Aperta. Roberto Rossellini realizara-o 28 anos antes dessa noite.[...] Quando Rossellini chegou à Gulbenkian, não cabia na sala um alfinete.[...] Não se ouviu uma mosca durante os 100 minutos de projecção do filme [...] 
Quando apareceu na tela a palavra  «fim», a sala levantou-se em peso para a maior ovação de que me recordo em sessões de cinema. No palco, Rossellini «com uma emoção que não disfarçava, mas também não exibia» como escreveu Helena Vaz da Silva no dia seguinte, esperou 10 minutos (não exagero) antes de conseguir agradecer. 10 minutos em que os «bravos» deram lugar a distintíssimos brados do género: «Abaixo o fascismo» ou «Liberdade, liberdade».[...] à saída, as pessoas abraçavam-se e muitas choravam. Quem não esteve lá nunca imaginará.[...] Rossellini estava espantadíssimo. O filme tinha tido acolhimentos desses, mas em 45 ou 46, no fim da guerra e do fascismo em Itália. Vinte e oito anos depois que «aquilo» ainda funcionasse assim, parecia-lhe da ordem do inexplicável. «Que país era este?» Lá lhe expliquei como pude. Foi então que Langlois, mais frio, me disse que o país podia ser assim ou assado, mas dentro de bem pouco tempo muitas coisas se iriam passar aqui. Habituado, há vinte anos, a frases dessas, respondi-lhe com enorme cepticismo. Alguns meses depois, a seguir ao 25 de Abril, lembrei-me desse comentário e perguntei~lhe por que é que ele tinha dito aquilo, como é que tinha adivinhado, «Sabe, - ripostou-me - o cinema mudo ensinou-me a ver muito. Não foi a algazarra que me impressionou, mas as caras das pessoas. As caras dos maus e as caras dos bons.» E repetiu a rir-se: «Le cinéma muet, le cinéma muet».Às vezes lembro-me disso e em comícios ou manifestações tiro o som à televisão, ou esforço-me por tapar os ouvidos. Langlois tinha razão."

João Bénard da Costa in "Os filmes da minha vida, os meus filmes da vida". Assírio & Alvim, 2003.
Iº Volume, página 289.



Roma, Cidade Aberta (Itália, 1945) de Roberto Rossellini