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A Europa ou o caos

Um conceituado grupo de escritores, filósofos, sociólogos, ensaístas e comentadores subscreveu um lancinante, dramático e oportuno manifesto dirigido aos cidadãos europeus intitulado:
‘EUROPA OU O CAOS’.
Trata-se de uma visão europeia - e europeísta - que, independentemente de discordâncias pontuais, não poderá, nem deverá, ser ignorada. Vale a pena ler.















intervenção sobre a imagem da pintura "A liberdade guiando o povo"(1830) de Eugène Delacroix 


A Europa não está em crise, está a morrer. Não a Europa como território, naturalmente. Mas a Europa como ideia. A Europa enquanto sonho e projecto.
A Europa de acordo com o espírito realçado por Edmund Husserl nas suas conferências realizadas em 1938, em Viena e Berlim, nas vésperas da catástrofe nazi. A Europa como vontade e representação, como sonho e construção, essa Europa que os nossos pais puseram em pé, essa Europa que soube transformar-se numa ideia nova, que foi capaz de fazer chegar aos povos acabados de sair da II Guerra Mundial a paz, a prosperidade e uma difusão da democracia sem precedentes, mas que, perante os nossos olhos, começou, mais uma vez, a desfazer-se. Desfaz-se em Atenas, um dos seus berços, no meio da indiferença e do cinismo das suas nações irmãs: existiu um tempo, o do movimento helénico do séc. XIX, em que desde Chateaubriand até Byron de Missolonghi, desde Berlioz até Delacroix, Desde Pushkin até ao jovem Victor Hugo, todos os artistas, poetas e grandes pensadores da Europa, voavam em seu auxílio e militavam em favor da sua liberdade. Hoje estamos longe disso; e cresce a impressão de que os herdeiros desses grandes europeus, enquanto os helenos travam uma nova batalha contra outra forma de decadência e sujeição, não têm nada de melhor que oferecer do que repreendê-los, estigmatizá-los, depreciá-los e – com um rigoroso plano de austeridade imposto, que os exorta a seguir – despojá-los do princípio da soberania que, há muito tempo, eles mesmos o inventaram.

Desfaz-se em Roma, um outro berço, outro pedestal, a segunda matriz (a terceira é o espírito de Jerusalém) da sua moral e seu saber, o outro lugar onde se inventou a distinção entre a Lei e o Direito, entre o ser humano e o cidadão, que constitui a origem do modelo democrático que muito trouxe, não só à Europa, mas ao Mundo: essa fonte romana contaminada pelo venenos de um berlusconismo que ainda não desapareceu, essa capital espiritual e cultural frequentemente incluída, junto com a Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda, nos famosos “PIIGS” que são fustigados por umas instituições financeiras sem consciência nem memória, esse país que ensinou a embelezar o Mundo na Europa e que agora aparece, com razão ou sem ela, como o doente do continente. Que miséria! Que ridículo!

Dafaz-se em todas as partes , de Este a Oeste, de Norte a Sul, com a ascensão dos populismos, chauvinismos, das ideologias de exclusão e ódio que a Europa tinha precisamente como missão marginalizar, debilitar e que voltam vergonhosamente a levantar cabeça. Quão longínqua está a época em que pelas ruas de França, em solidariedade com um estudante insultado por um responsável de um partido de memória tão escassa como as suas ideias, cantava-se “todos somos judeus alemães”. Quão longínquos parecem hoje os movimentos solidários em Londres, Berlim, Roma, Paris, para com os dissidentes daquela outra Europa que Milan Kundera chamava a Europa cativa e que parecia ser o coração do continente! E quando a pequena internacional de espíritos livres que lutavam, há 20 anos, por essa alma europeia incarnada por Sarajevo, debaixo de bombas e acorrentada a uma implacável “limpeza étnica”, onde está? Porque já não se a ouve?

E para além disso, a Europa a soçobrar à volta desta interminável crise do euro, que como todos sentimos não foi resolvida em absoluto: não é uma quimera essa moeda única abstracta, flutuante, que não está ligada a economias, recursos e fiscalidades convergentes? Não é evidente que as moedas comuns que funcionaram (marco depois de Zollverein, a lira da unidade italiana, o franco suíço, o dólar) são as que se apoiam num projecto político comum? Não existe uma lei de ferro que diga, para que exista uma moeda única, tem de haver um mínimo orçamento, regras contabilísticas e princípios de investimento, isto é, políticas compartilhadas?

O teorema é implacável. Sem federação, não há moeda sustentável. Sem unidade política, a moeda dura uns decénios e depois, aproveitando uma guerra ou uma crise, dissolve-se.

Por outras palavras, sem sérios avanços na integração política, obrigatória segundo os tratados europeus, mas que nenhum responsável leva a sério, sem uma diminuição de competências por parte dos Estados nacionais, portanto, sem uma franca derrota de esses “soberanistas” que empurram os cidadãos em direcção ao abismo, o euro desintegrar-se-á como se teria desintegrado o dólar se os sulistas tivessem ganho, há 150 anos, a guerra da Secessão.

Antes dizia-se: socialismo ou barbárie. Hoje devemos dizer: união política ou barbárie.

Melhor dito: federalismo ou explosão e, na loucura da explosão, a regressão social, a precariedade, o desemprego galopante, a miséria. Ou, a Europa dá um passo em frente, e decisivo, na integração política, ou sai da História e desaparece no caos. Já não resta outra opção: ou união política, ou morte. Uma morte que poderá adoptar muitas formas e revestir-se de rodeios. Pode durar dois, três, cinco, 10 anos, e ser precedida por numerosas sensações de remissão de que o pior já passou. Mas chegará. A Europa sairá da História. De uma ou de outra forma, se não fizermos algo, desaparecerá. Isto deixou de ser uma hipótese, um vago temor, uma bandeira vermelha que se agita perante os europeus recalcitrantes. É uma certeza. Um horizonte insuperável e fatal.
Todo o demais – truques mágicos de uns, pequenos acordos de outros, fundos de solidariedade por aqui, bancos de estabilização por lá – só serve para atrasar o fim e entreter o moribundo com a ilusão de uma prorrogação.

Assinam:

Vassilis Alexakis
Hans Christoph Buch
Juan Luis Cebrián
Umberto Eco
György Konrád
Julia Kristeva
Bernard-Henri Levy
António Lobo Antunes
Claudio Magris
Salman Rushdie
Fernando
Peter Schneider

Tradução do texto retirado deste blog