Poesia e Resistência


MANUEL DE FREITAS (Vale de Santarém, Portugal, 1972)

Num mundo como aquele em que vivemos, a poesia é, quase fatalmente, uma forma de resistência. Resistência à hegemonia de outros géneros literários ou (sub)produtos culturais, que a remete para uma quase invisibilidade, mas também resistência à massificação, ao espectáculo pseudo-cultural e à degradação quotidiana do verbo.

A poesia, como toda a arte, é ainda uma forma de resistência à morte, à monotonia, à insipidez dos dias e das palavras. No actual contexto português, a poesia pode (e deve) ser também uma forma de resistência ao infame acordo ortográfico, cuja prática virá trazer à língua as mais indesejáveis e apoéticas ambiguidades, entre outras consequências nefastas e dificilmente justificáveis.

A poesia resiste por ser essa a sua condição, porque toda a grande poesia provém de uma urgência de dizer, mais do que de uma escolha ou de um projecto.

Enquanto género praticado e acompanhado por não mais do que trezentas pessoas (e a isto se poderia chamar «a constante de Rui Pires Cabral»), a poesia, em Portugal, resiste quase heroicamente à crescente indiferença que por ela nutrem editores, suplementos literários e livreiros. A poesia resiste porque, na sua autenticidade e nobreza, não tem como objectivo chegar a milhares de leitores nem constituir, ao contrário das artes plásticas, uma forma de subsistência material.

A poesia resiste porque não pode ser adiada – para outro tempo, lugar ou voz. Nesse exacto sentido, e como já Goethe afirmou, a poesia é circunstancial. E resiste/responde, muitas vezes, a circunstâncias tão exactas quanto reconhecíveis: um luto, um encontro, um concerto de música, uma viagem.

Bem ou mal, o último poema que publiquei foi uma tentativa de resistir à aclamação de puetas (sic) que representam, para mim, tudo aquilo que a poesia não é.


INVENTÁRIO PLEBEU

                        para o José Miguel Silva


A verdade, digam lá o que disserem,
é que tivemos muito pouca sorte
com os poetas (?) nossos contemporâneos.

Um nasceu em Galveias e tatua-se
ou alfineta-se para disfarçar um vazio evidente;
outro gosta de andar nu em Braga,
muito depois – e aquém – de qualquer Pacheco.
(Ignoram, ambos, que a única pila maior
do que o mundo era a do João César Monteiro.)

Um terceiro, cujo nome nunca escreverei,
é a mulher moderna da edição
às cegas e da sacanice quotidiana. O quarto
e o quinto (gabo quem os logra distinguir)
arrotam melancolia e não admitem
o mínimo desvio à sacrossanta transfiguração da lírica.

O sexto – não, não me apetece falar aqui do sexto.

Consola-nos, isso sim, saber que uns se tornaram
entretanto romancistas (pilim, pilim), e que os restantes
hão-de ser, muito em breve, ministros
ou apenas pulhas (é, no fundo, a mesma coisa).

Enquanto, de esgoto em esgoto,
Portugal progride a olhos vistos
e é bem capaz de levar, um dia destes,
com outro Nobel nas trombas.


(Revista Piolho 006, Setembro de 2010, Porto, Edições Mortas / Black Sun Editores)