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não é Artista quem quer

The Artist (França, 2011) de Michel Hazanavicius, com Jean Dujardin e Bérénice Bejo.

Há ideias que surgem grandes, ambiciosas, e que parecem que têm tudo para resultar. No entanto se uma ideia não passar de um golpe de marketing, um balão publicitário vazio de alguma concepção cinematográfica o que temos é uma grande desilusão. Este filme é o exemplo disso mesmo. Não passa de sequências de imagens ilustrativas de um período da história do cinema: o mudo. Do auge de um actor dos silents movies e a sua queda com a chegada do cinema sonoro, os talkies. Foi durante o período do cinema mudo que se desenvolveu a linguagem do cinema e a necessidade de contar uma história com imagens, tout court, exigiu a criação de uma arte: a montagem cinematográfica. O que fez a glória do cinema mudo foram as imagens per se e a forma como eram tratadas em sequência e na relação que estabelecem entre si na montagem de um filme. Ao cineasta cabe-lhe definir o plano, a composição, o enquadramento, aquilo a que os franceses chamam e bem a mise-en-scène. E as cerejas são os actores, essas entidades que o público idolatra, com os quais se projectam numa identidade e criam os heróis, os artistas. Desde o inicio da indústria do cinema que os produtores dos grandes estúdios buscavam caras fotogénicas para o grande ecrã, o artista do cinema mudo nasce para servir uma imagem. Este The Artist não consegue atingir o nervo do que foi o cinema mudo, é rudimentar na realização e na montagem, trabalha superficialmente os clichés de uma época, e até a narratividade do filme não passa da mais básica linearidade. É o que se pode chamar de um filme de catálogo, um produto mainstrean para ilustrar um período histórico da arte do cinema, sem densidade alguma e com muito pouco cinema e se não fosse o brilho do olhar, o sorriso e a beleza fotogénica da actriz Bérénice Bejo este filme não passaria de um grande bocejo. Em 1950, o genial Billy Wilder realizou Sunset Boulevard (O Crepúsculo dos Deuses) este sim, um glorioso filme sobre a decadência de uma actriz (Gloria Swanson) do período dos silents movies.
Não é artista quem quer, seja ele actor, cineasta ou de outra arte, é artista quem pode. Hazanavicius queria muito fazer este filme, acho que é um projecto com mais de 10 anos, mas não faz dele um Artista ainda que leve para casa muitos prémios.