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"As imagens bastam-me" - Henri Langlois


"Langlois nunca deixou de programar um filme por não dispor de uma cópia legendada, assim como nunca deixou de programar se não tivesse uma cópia perfeita (quando alguém vinha reclamar que faltavam cenas a um filme, Mary Meerson [esposa e colaboradora de Henry Langlois na Cinémathèque Française ] costumava responder, com a maior das calmas, que ninguém pede para ter o seu bilhete reembolsado no Louvre porque a Vénus de Milo não tem braços!). Nascido para o cinema no tempo do mudo (tinha cerca de quinze anos quando o som se instalou), Langlois era de opinião que as informações são dadas pelas imagens e que o deleite diante de um filme não depende da percepção dos diálogos. Os futuros cineastas da Nouvelle Vague que quase nada sabiam de inglês viram dezenas de filmes americanos sem legendas na cinemateca de Langlois (naquele tempo a legendagem electrónica não existia) e deram testemunho que isso os obrigava a prestar mais atenção aos elementos da mise en scène, à iluminação, à montagem. E como Langlois recuperava cópias vindas do circuito comercial de outros países, podia muito bem passar um filme com legendas em norueguês, em árabe ou holandês. Bénard conta uma experiência pessoal que teve neste domínio, quando Langlois, de passagem por Lisboa, lhe pediu para ver O Passado e o Presente, de Oliveira. Como a cópia não tinha legendas, Bénard sentou-se ao lado dele e foi traduzindo, mas Langlois mandou-o calar: "Se o filme for bom não preciso para nada que me conte a história. As imagens bastam-me". Riu-se e acrescentou: "Le cinéma muet". Não era capricho nem vontade de ser original. Langlois via com profundidade, sabia que se o filme fosse bom a história não interessava, porque o que conta não é trama narrativa e sim a mise en scène e disse-o textualmente nesse dia."

in Magníficas Obsessões. João Bénard da Costa, um programador de cinema
Por António Reis. Edições Cinemateca Portuguesa. 2011