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Sangue do Meu Sangue



Sangue do Meu Sangue (2011) de João Canijo

Começo por dizer que não gostei nada de o ver e este talvez seja o melhor elogio que lhe posso fazer porque é um bom filme, só que eu não preciso desta realidade tão contundente, prefiro o distanciamento do real, valorizo mais a reflexão sobre a realidade do que um decalcar hiper-naturalista da mesma. O filme é um retrato social de uma família da periferia da capital filmado de forma tensa e incómoda: planos-sequência bem elaborados, enquadramentos rigorosos e alguns com o virtuosismo de termos dois planos em simultâneo e um tratamento visual por vezes próximo da pintura. Ou seja uma mise-en-scène irrepreensível sustentada em actores admiráveis. Nota-se tanto o esforço interpretativo que chega a irritar esse perfeccionismo num filme sobre o amor incondicional, cenas de humilhação e violência. Diria que este é um filme onde se cruza a realidade social de um Mike Leigh com a inesperada violência de Michael Haneke. Continuo a achar que a melhor obra de João Canijo é o filme "Noite Escura". Para quem anda distraído ou simplesmente não consegue ver, vai considerar que o filme revela uma profunda e perturbadora atenção desta realidade da sociedade portuguesa, mas este é um relato enfatuado e maneirista e até por vezes próximo da telenovela, hiperbólico na realização e na interpretação e quanto a mim a versão dos 140 minutos é mais do que suficiente.