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A Árvore da Vida

The Tree of Life (EUA, 2010) de Terrence Malick



Terrence Malick à quinta longa-metragem assume o papel de sacerdote das imagens nesta liturgia de arrebatadora e aborrecida beleza. Os clichés neste filme quase sem narrativa são abundantes. Toma como símbolo a árvore e o seu ciclo de vida, do nascimento à morte. Mas a ambição de Malick é enorme, ao ponto de filmar ou dar a ver imagens do universo, do sol e outros elementos das galáxias até à célula e seus constituintes. Um autêntico banquete visual e místico.
Uma reflexão filosófica em forma de viagem pelo ciclo da vida, da formação da Terra ao nossos dias, através de imagens de entediante beleza sobre os quatro elementos da vida, filmando até, imagine-se, o tempo dos dinossauros. É o suficiente para pensarmos se não estamos a ver um bom documentário da National Geographic. A ínfima narratividade do filme é construída sobre mais clichés como a família, representada num pai rigoroso, austero e frustrado que inflige aos filhos uma educação para terem sucesso na vida; uma mãe caridosa e ternurenta que oferece o conforto e as graças do amor.
E frases feitas com palavras como: amor, esperança e felicidade. Por vezes achei que estava num templo religioso em vez de uma sala de cinema.
Três irmãos representam a infância, a adolescência e a dores do crescimento entre a América dos anos 50 e os nossos dias. Não há vida sem tragédia, sem morte e sem o luto para nos fazer reflectir sobre a existência. Malick faz essa reflexão usando a câmara em constante movimento fazendo-a corresponder ao ritmo e ao movimento do planeta Terra, isto é, ela mexe-se muito, tal como os movimentos de rotação e translação, mas quase não a sentimos e faz isso muito bem, associada a uma montagem que alterna entre imagens contemplativas do universo e da memória com as do real. Tudo muito bem envolvido numa fotografia belíssima e som apuradíssimo. E para acompanhar a grande manifestação de existencialismo new age acrescenta ao ramalhete música erudita, a emoldurar e a reforçar as imagens.
"A árvore da Vida" é o tédio da beleza, a eloquência de conceitos ultra-repensados, gastos na reflexão dos tempos, é um filme que se auto-engole num buraco branco, inócuo, cujo fruto é oco e pouco suculento, um filme com uma estética insípida de laboratório, falta-lhe carne, alma, paixão, não perturba, não interroga, é um ansiolítico cuja substância activa são as imagens. Falta-lhe ironicamente vida. Reduz-se a uma experiência sensorial que conquistou a Palma d'Ouro no 64º Festival de Cinema de Cannes.