unraccord

uma tarde na baixa do Porto

Texto publicado no Jornal "O Comércio da Póvoa de Varzim" em 8.09.11 a convite do Clube Oito e Meio da ESEQ para a rubrica "Gabinete de Crise" que consiste num "exercício de economia criativa, com um orçamento máximo de 25 Euros sugerir a aquisição de três bens culturais."


É possível passar uma agradável tarde numa das cidades mais belas da Europa, O Porto,
sem necessidade de recorrer aos aviões low cost, bastando para isso apanhar o metro, transporte público que deveria oferecer um tempo de viagem mais curto que os 55 minutos entre a Póvoa de Varzim e a estação da Trindade. Por isso, aproveito sempre essa viagem para ler, e digo-vos é um dos meus espaços preferidos para me dedicar à leitura, pois nesse espaço-tempo faço sempre duas viagens, uma física no próprio veículo do metro e outra no livro que entretanto leio. Para esta viagem de ida e volta de metro são necessários subtrair 5€ (muito caro) ao valor definido para uma tarde de flâneur pelas ruas da baixa do Porto.

Chegado à estação da Trindade tomo o caminho que me leva ao bairro dos livros, à zona das livrarias e alfarrabistas que fica entre as ruas da Cedofeita e as adjacentes aos Clérigos. Num desses alfarrabistas encontro um dos livros da minha vida “Coração, solitário caçador” (The Heart Is a Lonely Hunter, 1940) da genial Carson McCullers. Este é um daqueles livros que compro repetidamente para oferecer, por apenas 5€, consegue-se a edição de bolso das Publicações Europa-América com a excelente tradução de José Rodrigues Migueis.

Continuo na rota das livrarias, mas impedido pelo valor imposto para gastar, limito-me a ver as capas e a folhear alguns livros, memorizando alguns títulos para próximas visitas.
Sobram-me 15€ para adquirir um dvd e um cd, coisas que juntamente com os livros costumo carregar na mochila. Mas antes disso e de borla ainda vou ver as exposições de fotografia que se encontram patentes no Centro Português de Fotografia. Um excelente espaço para a fotografia, instalado nas antigas instalações da Cadeia da Relação à Cordoaria.
Um sítio que merece toda a divulgação e que aconselho vivamente visitar, seja o rigor granítico do espaço como as exposições de fotografia é tudo gratuito. E assim se desfruta uma excelente hora.

O passeio, numa tarde de sol, pelas ruas da baixa do porto e a visita às exposições no CPF fazem despertar a sede, então nada como uma paragem numa esplanada dos Aliados para uma refrescante cerveja, onde se gasta 1,5€ e estamos numa das praças mais lindas de Portugal. Depois do descanso, já temos a energia suficiente para subir a íngreme rua 31 de Janeiro até à praça Batalha, e de seguida à famosa rua Santa Catarina onde se localiza a loja da multinacional que explora mercados da cultura e onde ainda vendem, por enquanto, CD’s e DVD’s e alguns livros. Aqui deve-se sempre procurar os preços mínimos e ver se lá aparece alguma relíquia. Cool, encontro um dos clássicos discos de Jazz “Kind of Blue” (1959) de Miles Davis por 8€. Dirijo-me aos filmes, sempre gostei das primeiras obras dos cineastas de quem acompanho o percurso, um deles é o Norte-Americano Hal Hartley, que faz filmes indies de autor que mais parecem Europeus, e por 5€ o DVD do seu primeiro filme, também irá para a mochila, a intrigante e estranha comédia “A Incrível Verdade” (The Unbelievable Truth, 1989).

Chego ao final da tarde carregando na mochila um livro, um disco e um filme por apenas 18€, somando os 5€ do metro, mais 1,5€ da cerveja, totaliza 24,5 Euros. Ainda me sobram 50 cêntimos para uns rebuçados, que adoçarão a leitura durante a viagem de regresso de metro.