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Um futuro para as salas de cinema?

por Francisco Valente, em Nova Iorque


Em tempo de crise, as salas em Nova Iorque são um exemplo de resistência e renovação. Apesar de problemas universais (e portugueses) que fecham as salas, alguns cinemas da cidade renascem.

Olhamos para a paisagem urbana portuguesa e reconhecemos o que existe a mais e a menos: centros comerciais e salas de cinema, respectivamente. Os primeiros aglomeraram as últimas, uniformizando um circuito a favor de grandes produções de um só país (os Estados Unidos). Num regime de distribuição que procura, em desespero, encontrar o seu público para filmes estrangeiros e outros autores, chegam ainda as novas tecnologias que garantem, a espectadores sem salas, a espontaneidade da descoberta de um filme. O mesmo descrédito atinge as políticas públicas culturais: este ano, não vimos apenas salas comerciais fecharem em Portugal, mas também uma das salas da Cinemateca Portuguesa.

Mas o destino das salas de cinema tem-se revelado semelhante em todas as cidades: o crescimento das salas multiplex, a propagação de novos instrumentos de visionamento de imagens, o uso maciço da Internet e o surgimento das primeiras gerações que se vêem filmes foras das salas de cinema provocam, a nível mundial, uma era de incompreensão e crise na distribuição cinematográfica. Mas em Nova Iorque, local de outras dimensões mas também atingida pela fuga de público, as salas de cinema reencontram agora novas formas de existência.

O estrangulamento da distribuição
Karen Cooper, directora do Film Forum desde 1972 - um dos berços da 0cinefilia nova-iorquina -, mostra-nos imagens de 12 cinemas encerrados na cidade. "Fecharam todos nos últimos 25 anos, salas comerciais que mostravam filmes estrangeiros, documentários e obras independentes. Entretanto, abrem espaços com mais de 10 ecrãs que mostram apenas filmes de Hollywood", diz ao Ípsilon. "Aquilo que acaba por interessá-los é sempre o mesmo: dinheiro. O espectador médio nos EUA tem entre 17 e 24 anos, e o público dos filmes independentes e estrangeiros é mais velho. Hollywood têm pouco interesse num sector não-lucrativo."

Mas a distribuição comercial de uma enorme indústria obriga os cinemas independentes a agilizarem o seu funcionamento. "Os apoios públicos são importantes para o nosso funcionamento, mas procuramos fundos privados", diz-nos Cooper. "Temos apoios do governo federal, do Estado e do município, mas são minúsculos." À entrada do Film Forum, um quadro mostra-nos as fontes de financiamento privado do cinema. "Trabalhamos muito para angariar dinheiro de fundações, corporações ou pessoas abastadas." Paradoxalmente, nasce um trabalho de venda da missão de um lugar que procura exibir filmes em vez de produtos, mas que tem indubitavelmente fortalecido o seu posicionamento na cidade.

Scott Foundas, crítico de cinema e director da programação do Film Society of Lincoln Center, prepara a reabertura do espaço cinematográfico de uma das maiores instituições culturais da cidade. Foundas realça a esquizofrenia presente da distribuição de filmes: "Existem mais filmes a serem feitos e a competir em festivais regionais e temáticos. É mais difícil entrarem nas salas, e não é raro ter filmes a não conseguirem uma segunda semana de exibição devido aos que entram a seguir." A estratégia de quem lança os filmes passa, perversamente, por apostar na sua saída das salas. "A estreia comercial dos filmes acaba por ser uma campanha publicitária para um lançamento em DVD, ou na Internet, com uma crítica de uma publicação de prestígio. Poucos distribuidores fazem dinheiro com as salas." A distribuição acaba por cair, assim, num círculo vicioso. "Fora dos Estados Unidos, existem fundos públicos que tornam menos imperativo um resultado lucrativo para um filme", refere Foundas. "Mas o dinheiro em cima da mesa é tão inferior ao que existia antes que se recupera muito menos depois da sua exploração. Esse é um dos problemas actuais da distribuição."

Tecnologia e património
"Tem havido uma fragmentação do público com o aumento da acessibilidade a imagens em contextos exteriores às salas", continua. Mas apesar do maior acesso, "não podemos dizer que autores contemporâneos tenham o mesmo reconhecimento que alguém como Godard, Fellini, Truffaut ou Bergman nos anos 60." E para o programador da Film Society, "é como se Thomas Edison estivesse a ganhar a guerra aos irmãos Lumière: todos os computadores e telefones são a versão moderna do Caleidoscópio que vemos sozinhos, enquanto que os Lumière acreditavam na experiência colectiva de mostrar um filme."

Mas as salas nova-iorquinas respondem com um outro factor: a criação de uma identidade. "Não faço compromissos para alguém que esteja habituado a outras formas de ver um filme", diz-nos Karen Cooper. "O que faço, para todos, é mostrar os melhores filmes que existem que não foram exibidos, não podem ser tirados da Internet ou vistos em DVD. Esse é o meu método para trazer pessoas."
 A mesma ideia é seguida por um dos espaços mais singulares da cidade: o Anthology Film Archives [AFA], co-fundado por Jonas Mekas em 1970, dedicado ao cinema experimental. John Mhiripiri, o seu director de programação, realça a importância da personalidade do seu trabalho. "Ainda nos mantemos fiéis à nossa missão original, que é única na cidade.

Nos últimos 5 anos, o crescimento do nosso trabalho tem-se acentuado, e isso deve-se a mostrarmos os filmes no seu formato original." Para Mhiripiri, o maior acesso a um filme fora das salas não impede a sua descoberta dentro delas. "Se estiver disponível em DVD, as pessoas poderão alugá-lo ou vê-lo na Internet. Mas não acredito que tenha um grande impacto no nosso trabalho - se ele existe, estará numa maior vontade em descobrir as mesmas obras nas salas." A função do AFA passa, assim, pela valorização da experiência de ver um filme em película. "É cada vez mais raro ver filmes no formato em que foram feitos, e nem toda a gente percebe a diferença entre ver um filme projectado numa sala e uma reprodução em sua casa", diz Mhiripiri. Daí a crescente importância de um local como o AFA. Para isso, a instituição usa também a tecnologia, sem preconceitos. "Estamos a digitalizar o nosso arquivo para colocá-lo no nosso site e torná-lo acessível a qualquer pessoa no mundo. Isso não compromete a exibição nas salas, torna-as um lugar mais interessante", diz ao Ípsilon.

Mas o melhor reconhecimento das novas plataformas de imagens estará no sucesso do Museum of Moving Image, recentemente reaberto. Para além das excelentes condições da sala onde desenvolve a sua programação, o museu junta uma exposição da história do cinema a uma área dedicada às novas formas de interacção das imagens. O seu director, David Schwartz, salienta a importância de conviver entre as duas experiências. "Existem inúmeras formas de se ver um filme hoje, mas as pessoas ainda procuram a experiência social. Quando fazemos uma retrospectiva de Terrence Malick, esses filmes têm de ser vistos numa sala de cinema. As pessoas novas já ouviram falar desses realizadores e querem ver os seus filmes. Poderíamos pensar que é uma altura difícil para um sala de cinema, mas na verdade, o público existe."

Schwartz também acredita que a descoberta de filmes na Internet incentiva a curiosidade de os ver em sala. "Não me oponho a sites como o Mubi e acho interessante ver filmes em aparelhos portáteis, não podemos ser completamente puristas. Mas qualquer pessoa que se interessa por cinema percebe que é importante que os filmes sejam vistos em sala", diz-nos. O museu acaba por usar a Internet como meio para desenvolver um trabalho sobre o património cinematográfico, aliado ao seu serviço educativo no seu espaço. "Criámos uma publicação online e um calendário mundial de filmes e eventos. A Internet pode funcionar lado a lado com o que acontece na sala de cinema", diz Schwartz, reconhecendo que se os filmes existem fora das salas, as instituições devem também preencher esse lugar.

Uma exibição, uma educação
Para Scott Foundas, "um dos grandes desafios está na apresentação dos filmes mais antigos e retrospectivas. Existem cada vez menos cópias boas dos filmes e os seus proprietários cobram cada vez mais dinheiro para exibi-los. Quando pedimos um filme a um estúdio, dizem que não o têm ou que preferem que seja projectado em DVD."
Mas o reforço da identidade das salas independentes e o seu trabalho pedagógico não só acorda a indústria, como cria uma nova oportunidade face à uniformidade dos espaços comerciais. "Muitas pessoas perguntam porque é que uma organização como a nossa quer expandir o seu espaço", diz Foundas, cuja renovada Film Society reabrirá em 3 salas. "Fazemo-lo pelas mesmas razões que o Museum of the Moving Image reabriu num novo local ou a Bamcinématek mantém 4 salas em vez de uma só: um modelo que mostra estreias de filmes contemporâneos ao lado de obras que caberiam numa cinemateca." E num tempo de desvirtuação das imagens, as salas não surgem como vítimas, mas como locais de renovado valor. "É importante mostrar a ligação entre o cinema e o que veio depois dele", continua Foundas. "O desafio mais importante está em saber trazer as pessoas para a descoberta de realizadores que são tão importantes, hoje, como eram Welles ou Godard nos seus tempos", dando a experiência de ver um filme numa sala "às pessoas que não têm a educação visual para fazer a distinção [entre o acesso digital e a película] que as gerações anteriores têm."

Cada local, na cidade, está consciente da sua concorrência. Mas o seu trabalho passa, também, por uma programação virada para a comunidade que forma os seus bairros.
Enquanto que a BAMcinématek, a academia de música de Brooklyn, também abre espaço ao cinema, David Schwartz sublinha que a relativa distância do Museum of Moving Image em Queens joga a seu favor. "As instituições de cinema trabalham juntas, apesar de competirem por um público. Cada instituição tem a sua personalidade e isso reflecte-se na gestão do espaço. Estamos numa área culturalmente diversificada e a nossa programação responde a isso", diz-nos.
Do mesmo modo, o encontro de espectadores e cinéfilos em locais que apreciam os filmes exibidos desperta o interesse dos próprios realizadores. Todos os espaços recebem cineastas, actores, críticos ou especialistas para apresentar filmes, verificar as condições da projecção e fazer, em cada exibição, um evento único. "A maior parte dos realizadores não tem poder de decisão sobre os locais em que os filmes são exibidos", explica Karen Cooper, "por isso, preferem sempre ver as suas obras num ecrã de alguém que gosta de cinema e toma cuidado da imagem e som." A relação especial que se cria entre profissionais e amantes do cinema gera também soluções para a distribuição. "Meek's Cutoff" de Kelly Reichardt, por exemplo, foi alvo de uma exibição exclusiva no Film Forum, com a presença da realizadora, antes de ser lançado no resto da cidade.

Para Cooper, "penso que haverá sempre um futuro para as salas de cinema, pois existe uma experiência social que vem com isso." E para Foundas: "Ofereceremos novas maneiras ao público para vir ao encontro das nossas salas e ter uma experiência mais rica. Ver um filme em 70mm ou numa cópia de nitrato com a pessoa que o fez é uma experiência especial que diz valer a pena fazer o percurso até à sala." E essa experiência surge agora recriada em complemento com novas as formas de interacção e uma ideia de pedagogia. Os espectadores, esses, nunca deixaram de existir.