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Filme Socialismo ou mais um filme-ensaio de JLG



Em continuidade com a obra-prima “Histoire(s) du Cinéma”, Jean-Luc Godard de novo a reflectir sobre e com as imagens, a experimentar e a inovar a linguagem do cinema.
Não surpreende este filme-ensaio na extensa obra cinematográfica de Jean-Luc Godard,
leia-se este excerto de uma entrevista à célebre revista "Cahiers du Cinéma" em 1962:
“Considero-me um ensaísta, faço ensaios em forma de romances ou romances em forma de ensaios: só que os filmo em vez de os escrever. Se o cinema acabasse, eu não ficava desarmado: passava para a televisão, e se a televisão desaparecer, voltava ao lápis e ao papel.”
“Des chose comme elles sont” agora, passados 48 anos desta entrevista, deve-se acrescentar que JLG ainda não precisou de voltar ao lápis e ao papel, mas como um grande camaleão que sempre foi, adaptou-se às novas tecnologias digitais e à internet e fez um filme-ensaio em duas versões. Uma com a duração de 101 minutos para se ver em sala e uma outra, em formato trailer, com uma duração de 4 minutos e 6 segundos (video do post) que apresenta de forma acelerada e na íntegra todo o filme para a geração impaciente do download do mundo contemporâneo, que vê filmes em monitores, pouco se importando com a qualidade da imagem e do som. “Quando a lei é injusta, a justiça passa antes da lei”, lê-se no final do filme.
A História do mundo reflecte-se na história das imagens, das estáticas pinturas rupestres, passando pela simbologia Egipcia, o imaginário Indiano e de todo o Oriente, até à arte da Europa ocidental que nos finais do século XIX descobre as imagens fotográficas em movimento, o invento do cinematógrafo nas palavras de JLG: “a maior história é a história do cinema. É uma preocupaçãodo século XIX resolvida no século XX. É maior do que as outras porque projecta, enquanto as outras se reduzem a elas próprias”
Film Socialisme é um filme político sobre a história da Europa, centrada no mediterrâneo, local onde cinicamente navegam os cruzeiros do capitalismo ao lado das barcaças dos emigrantes clandestinos. Hélas.
A reflexão de JLG sobre o destino da Europa “Quo Vadis Europa?” faz-se com imagens e sons, sejam de arquivo ou captadas em suporte digital, o que resulta propositadamente, em imagens de uma medíocre qualidade técnica. A captação total e abrangente das imagens que a revolução digital permite é equivalente a outras históricas revoluções em séculos passados. Quando tudo se ganha, tudo se pode perder. Esta equivalência suscita a pergunta: Quo Vadis Cinema?
“É preciso coragem para pensar” diz-nos Godard, nas qualidades de um Musil na sua proposição “por todos aqueles que não apreciam particularmente a actividade de pensar".
Godard é um cineasta do confronto entre a iconoclastia e a iconofilia, serve-se das imagens para pensar, ora destruindo-as, ora idolantrando-as. No Film Socialisme a deterioração que provoca nas imagens atinge o grau da abstração e por isso, também, coloca a pergunta
“É preciso aprender a ver”. Estes aforismos e citações que pontuam os filmes de Godard são acompanhados pela obsessão tricolor do vermelho, azul e amarelo e desta vez nem o burro Balthasar do filme de Robert Bresson ou o Balzac das “Ilusões Perdidas” escapam.
“No comment” é o último plano do Film Socialisme, aqui aceitam-se comentários.