unraccord

Eu também (às vezes) sou muito impressionável.

Que falta fazes, João, a este quintal mais ocidental da Europa.

Na exacta medida em que a crítica se torna cinema e o cinema se torna crítica, julgo que a influência de Godard é óbvia no meu filme [refere-se a: Sophia de Mello Breyner Andressen (1969) ]. Tirando isso, e pondo de parte a questão das afinidades que nem sempre são necessariamente cinematográficas, Murnau é o cineasta que mais me impressiona. No século XX só outra obra me impressiona tanto: a de Paul Klee. E a de kafka. E a de Céline. Pensando melhor, sou muito impressionável.
Há, porém, cineastas que não me canso de amar. Renoir, Bergman, Mozart, Griffith, Mizoguchi, Vermeer, Lang, Camões, Rossellini, Webern, Hitchcock, Nicholas Ray, Montaigne.
Outros que aprendi a amar recentemente: Bresson, Dreyer, Mondrian… Um que amo por correspondência e morre de fome na abundante Alemanha: Straub. Mandar-lhe-ei umas vitualhas e espero que os meus colegas mais bem instalados na vida não se façam rogados.
Dedico o meu filme a Dreyer porque antes de morrer nos legou um dos mais belos filmes que vi até hoje. O César de saias pensa o mesmo. Parece-me uma boa razão. O filme chama-se Gertrud.

João César Monteiro, “Auto-Entrevista” in O Tempo e o Modo, nº 69/70, 1969

Descobri esta sequência de "Gertrud" (1964) a última obra-prima de Dreyer dobrado em italiano, a versão original é em dinamarquês e fiquei espantado, é que resulta muito bem neste magnífico filme.