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dois irmãos foram buscar alecrim e criaram um poema

Quem nunca foi irresponsável na vida, depois de ver este filme, que atire a primeira pedra. Se pelo contrário, também, na infância fugia do mundo para a penumbra de uma sala de cinema quase vazia, para se sentar mesmo por baixo de um feixe de luz que transporta magia, então não deixe de o ver. E numa sala de cinema se possível, para se sentir a atomicidade da película já que num dvd como dizem os outros "não é a mesma coisa". Ai não é não. 
Parafraseando Thierry Garrel, a realidade não é aquilo que vemos, mas aquilo que pensamos, com a infância é a mesma coisa. A chama da infância não se apaga quando a biologia o determina, em algumas abençoadas pessoas prolonga-se durante a vida. Quase me atrevo a especular (não é o que mais se faz por estes dias?) que os políticos e os gestores que governam o mundo não tiveram uma infância divertida, e que por esse motivo o mundo anda desesperado na agonia da sobrevivência.
A vida, ah essa estranha forma, como a agarrar se ela se esconde e escorrega das mãos como uma salamandra? Todos o sabemos, ela é uma ordinária desavergonhada, não há segredos, com o Amor. Sem lamechismo, este é entre um pai e os seus dois filhos. Com a câmara insegura à mão, a tentar filmar espaços reduzidos (o apartamento, a cabine de projecção, etc) numa grande cidade como New York, tudo neste filme é de uma sedutora fragilidade. Produzido com todas as características do indie film, talvez as tenha em demasia e era dispensável o aparecimento de Abel Ferrara, de Lee Ranaldo e dos filhos deste, a protogonizarem o filme juntamente com o excelente Ronald Bronstein. Era preferível a utilização de não actores, mas que fossem desconhecidos, anónimos, na escola de Robert Bresson. Cansa ver estes tiques de produção indie a piscar o olho aos cultos pessoais, ainda que de reconhecido mérito.
"Go Get Some Rosemary" (2009) funciona quase como uma antítese de um outro filme da Nouvelle Vague, "Les Quatre Cents Coups"(1959) de François Truffaut. 50 anos separam estas crianças. A criança de Truffaut, também foge para as salas de cinema, mas há nela um desejo de ser adulto que só lhe traz problemas. Aqui há um adulto que num esforço caótico de comunicar e de ter o afecto dos filhos, fica tão cansado que acaba por ter um comportamento negligente e displicente, recuperando o equilíbrio quando coloca um vinil a tocar. Julgo que os irmãos Ben Safdie e Joshua Safdie não tinham essa intenção, mas como também acontece no mundo das crianças, a imprevisibilidade nasce com o mínimo movimento, neste filme do alecrim em folha nasceu um poema. Um poema sobre a infância e a vida.