unraccord

dos livros mais lindos que já li

"As Tábuas de Buxo de Apronenia Avitia" uma espécie de diário de uma patrícia romana, que viveu intensamente no século IV d.c. até aos 71 anos. Alguns textos são verdadeira poesia.



II. COISAS RARAS

Entre as coisas que são raras, acrescentaria um livro bem corrigido.
Um Homem que esquece o olhar dos outros homens.
Uma pinça de depilar que depila.
Persianas nas janelas que não deixem passa a luz do dia.

VII. DIFERENTES ESPÉCIES DE MULHERES

As mulheres que acham tudo admirável, fabuloso, fantástico são detestáveis.
As mulheres que acham tudo mesquinho, medíocre, estúpido, nulo, sem gosto são detestáveis.

XIV. COISAS QUE ENVERGONHAM

Entrar no quarto do marido, na ala ocidental do palácio, e vê-lo nu a quatro patas, na cama, rodeado dos seus pequenos lacaios, todos numa azáfama a aplicar-lhe pomadas, água fria, panos, unguentos — com o braseiro aceso em pleno verão — e o pequeno massagista a depilar-lhe o cu e o púbis à excepção do escroto.



XIX. Q. ALCIMIUS

Às suas propostas mais ousadas, mais tímidas, no amor do prazer em que os seus membros, a sua voz, 
o seu olhar me mergulhavam, não o deixava acabar o pedido. Dizia sim sem sombra de hesitação.


XX. NOITES DE FOME

Então as noites sem pelo menos três orgasmos parecia-nos noites de fome.

XXXII. DESCOBERTA

Não gosto de fazer amor durante a primeira sesta.

CLVI. OS ORIFÍCIOS DO CORPO

Parece-me que os nove orifícios do meu corpo se abrem inutilmente. Devem sem dúvida ter começado a tomar consciência de que estão abertos para o vazio. Os meus nove orifícios começaram a dialogar com o silêncio da morte.

Organização e introdução de Pascal Quignard 

in "As tábuas de buxo de Apronenia Avitia"
Livros Cotovia, 1999. Tradução de Ernesto Sampaio