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As Praias de Agnès, um filme maravilhoso

"Recordamos enquanto vivemos" são as últimas palavras sábias de Agnès Varda neste maravilhoso filme sobre as suas memórias e a sua paixão pela arte e o cinema. Na vida aventurosa desta mulher de emoções puras cruzaram-se Jacques Demy (seu marido), Jean-Luc Godard, François Truffaut e Alain Resnais cineastas fundadores da Nouvelle Vague, Chris Marker, Philipe Noiret, Alexander Calder, Gérard Depardieu, Catherine Deneuve, Michel Picoli, Gérard Philipe, Brassai, Jim Morrison, e muitos outros que marcaram a arte, a música e o cinema no século XX. Mas a sequência que mais me impressionou neste "Les Plages d'Agnès" é a homenagem que Varda faz a actor de um dos seus primeiros filmes.
Agnès regressa à terra de pescadores onde passou a sua juventude e convida os dois filhos desse actor, que morreu pouco depois da conclusão do filme, para participarem numa instalação cinemática. Pelas ruas e travessas dessa pequena localidade empurram uma carroça, onde está instalado um projector de filmes em película e uma tela. Os dois irmãos empurram a carroça enquanto assistem à projecção do filme que Varda fez com o seu pai e diz-nos que já que nunca o viram a andar têm agora a oportunidade de o ver a andar num filme. É o milagre do cinema. Se Agnès Varda só tivesse realizado esta instalação cinemática, ainda que eu muito admire todos os seus filmes e muito em especial "Cléo de 5 à 7", esta concepção artística que podemos visualizar neste filme de memórias seria o suficiente para reconhecer a sua genialidade.
À grande Agnès um sincero beijo.