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A Bela e o António-Pedro Vasconcelos


A bela Soraia Chaves não é a protagonista deste texto mas sim o realizador que a dirigiu em dois filmes e que deu uma entrevista ao suplemento Ipsilon do Jornal Público de bradar aos céus de tanta incoerência e disparate.
A obra de António-Pedro Vasconcelos não me interessa de todo, tenho contudo o maior respeito pelo senhor e pelo seu percurso no cinema português. Os seus filmes iniciais apontavam para um cineasta a seguir com alguma atenção, influenciado pelo espírito da Nouvelle Vague, filmou em 1972 “Perdido por Cem”  tendo como modelo o filme de Godard “Pedro, o Louco”.
Depois mudou de rumo e resvalou para um cinema mais comercial, “mainstream” nas palavras do próprio. A partir do filme “O Lugar do Morto” (1984) APV entregou-se a projectos cinematográficos para chegar às massas populares, conseguiu algum sucesso comercial à custa da cedência ao facilitismo, e a modelos de um cinema inspirados nos métodos de produção Norte-Americanos, só que na escala portuguesa resultaram em filmes falhados e não só para os críticos. Não é o rumo que a sua obra tomou que questiono, está no seu direito e conseguindo apoios financeiros para a produção dos filmes que bem entende, que faça muitos e seja muito feliz.
O que questiono é a incoerência que manifesta nessa entrevista, APV tem uma boa formação cinéfila, sabe muito da História do Cinema, tem idade para ter visto todos os grandes e os menores filmes, dos clássicos, ao cinema de autor, etc. Também andou, como outros da sua geração pela cinemateca de Paris, num sedutor calvário de maratonas a ver filmes, acampando à porta da mesma. Regressa para ser um dos impulsionadores do Novo Cinema Português, com Paulo Rocha entre outros. E imagine-se colaborou com João César Monteiro na revista “O Cinéfilo”. Todo este fabuloso percurso inicial para termos como resultado os filmes que agora realiza. Parece que aprendeu muito pouco ou optou por esquecer tudo. Diz nessa entrevista que agora é “um dissidente do cinema europeu”, pois que o seja, terá as suas razões, e aponta algumas, mas outras são um disparate.
Dizer que “A Canção de Lisboa” é uma obra-prima e destacar “O Pátio das Cantigas” ou “O Pai Tirano” como “os únicos filmes que conseguiram abrir uma brecha no regime foram as comédias”, mas que falácia, e quais eram os outros filmes que o Estado Novo permitia realizar? Quem é que fazia filmes nesses anos 40? Dizer que “a comédia é um género tão nobre como outro qualquer” não levanta qualquer dúvida ou questão, mas “que a comédia dos anos 40 é irreverente e subversiva, mas de maneira muito subliminar” só pode ser uma piada de mau gosto. A irreverência dos filmes portugueses dos anos 40 é a do mofo pidesco e ridículo do Estado Novo, que com um cinema de propaganda tentou passar uma imagem falsa de um país miserável e provinciano, filmes manipuladores da sociedade de então, comédias de bairro de um “Portugal dos pequeninos”. Isto é cá uma irreverência de atordoar um peru. Filmes “subversivos” (como?) deve ser para rir, uma anedota subliminar ou então APV deve andar entusiasmado com as leituras da alta-cultura da “Nicotina Magazine”. Defende a comédia, como um género acessível ao grande público (seja lá isso o que for) só que estas não têm que ser estúpidas,  ridículas ou cinematograficamente medíocres como suportes de reflexão sobre a sociedade e o seu tempo.  As boas comédias na sua aparente simplicidade e eficácia junto do público assentam numa complexidade de dificil concepção, são talentos de só alguns mestres cineastas, que muito bem cita. Até ao momento será que podemos dizer o mesmo dos seus filmes e da sua última comédia?  Na escassa produção portuguesa desde 1989 que não me lembro de melhor comédia do que “Recordações da Casa Amarela” de João César Monteiro . Não encheu salas de cinema, foi um êxito relativo junto do público. Mas é muito mais cinema do que qualquer outra e em qualquer parte do mundo. Sobre Jean-Luc Godard “um dos cineastas que mais me inspirou nos anos 60” diz que “ teve muitos seguidores, mas depois deixou-os na estrada. Porque foi incapaz de tomar o poder. E traiu toda a gente.”
Está no seu direito ter deixado de ser um seguidor da obra de Godard, mas parece-me um absurdo afirmar que JLG abandonou tudo e todos e falar em traição um exagerado erro de leitura da sua obra, do seu percurso e pensamento. JLG tomar o poder? Mas ele alguma vez foi profeta ou líder de uma seita religiosa, ou mercenário do cinema? Quem o tomou como tal enganou-se redondamente. Os excessos revolucionários do Maio de 68 há muito que foram absorvidos pelo capitalismo, JLG percebeu isso no tempo justo. A imensa obra de J-L.Godard é feita de filmes fundamentais para a história e a linguagem do cinema com outros filmes mais experimentais, que arriscam e propõem uma reflexão sobre mundo e o mistério do cinema. Um percurso longo e coerente, uma referência mundial impossível de anular. O cinema contemporâneo passa inevitavelmente por Jean-Luc Godard.
Nesta entrevista APV dá uma no cravo e outra na ferradura, as suas propostas para um futuro cinema português são particularmente desastrosas.
Sente-se a sua confusão entre os métodos de produção para televisão e os do cinema. Pretender uma fusão a frio ou quente, tanto lhe faz, só pode resultar em medíocres filmes. Fala em “mainstream”, mercado e público para o negócio capitalista do cinema, talvez até consiga convencer, com o seu bom gosto os iluminados que detêm o poder deste país da genialidade dos seus argumentos, e que continue a fazer muitos filmes para encher as salas dos centros comerciais, vender muitas pipocas e todo o merchandising que se possa explorar é só adaptar os modelos financeiros de Hollywood e pronto, uma indústria na hora. Entretenimento garantido. Só não temos é cinema, cineastas e actores e tudo o que faz a arte do cinema. No seu próximo filme, que será certamente esplêndido, seria bom não voltarmos a ver a coitadinha da Soraia Chaves, é que tanto talento e tanta beleza exige outros desafios. Ainda gostaria de a ver um dia, num filme, no papel da “La Belle Noiseuse”.