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O Anticristo Porno Chic de Lars Von Trier



Acabado de ver o “Anticristo” de Lars Von Trier a minha vontade imediata era dar-lhe duas bofetadas como reação ao que tive de suportar, fazendo jus ao estilo do filme, e manifestar-lhe toda a minha indignação.
Na impossibilidade, ainda pensei que esta crítica poderia ser escrita em papel higiénico para dar-lhe uma utilidade condizente com a nojeira do filme, mas desse modo não a poderia divulgar.
Von Trier, tentou mais uma vez fazer um filme visualmente forte, mais um, isto começa a cansar de tanta obsessão assente na culpa, com “Ondas de Paixão” é o que se viu e sentiu, aquilo foi até ao sufoco emocional, o seu melhor filme sem dúvida, com este “Anticristo” esvazia toda a sua obra ao pretender um filme declaradamente abjecto e esmurrar o espectador com imagens repugnantes, a única coisa que conseguiu fazer. Quem já leu Sade ou viu o “Saló ou os 120 Dias de Sodoma” de Pasolini saberá perceber as diferenças literárias e fílmicas entre essas obras maiores e este filme abjecto.
Não que as imagens ou os planos isolados do filme sejam mais repugnantes do que muitas a que somos sujeitos do real que a televisão diariamente transmite ou que encontramos a navegar na internet, mas porque estas não podem ser isoladas do contexto de todo o filme. Von Trier se pudesse, sentava-se escondido ao nosso lado para nos enfiar as imagens directamente nos olhos, ou nos cortar com lâminas enferrujadas, ou nos espancar com ferros em fogo. Mas até isso se fosse possível só nos provocaria desprezo, tédio e irritação com tanta cretinice. Dor e sofrimento é que nunca. Lars Von Trier ainda não percebeu isso, é um pacóvio Dinamarquês que almeja fazer filmes choque e que resultam em filmes chic. Dirty Chic, uma pocilga de imagens fashion, a Charlotte Gainsbourg, talvez cante bem (?), mas no lugar dela a Kate Moss era capaz de ser mais autêntica e menos forçada, Willem Dafoe, que ninguém dúvida do talento deste grande actor, anda perdido no filme a tentar expor as obsessões de Von Trier em expressões crísticas e explicitas poses porno do corpo, em planos completamente esteticizados até à repugnância, como aquele da cópula na base da árvore. Ou a sequência da roda de pedra até à tesoura. O close up do corte com a tesoura é simplesmente badalhoco. Uma curta elipse era suficiente. Mas LVT com certeza pensou que nos poderiamos intrigar, fazer confusão e não perceber o seu filme, vai daí resolveu mostrar em detalhe o que estaria a personagem a cortar, saltamos de imediato para um filme de cirurgia genital. Lamentável.
De castigo Lars Von Trier deveria ver milhares de vezes a sequência de Isabelle Huppert sentada na banheira com a lâmina de barbear no magnífico “A Pianista” de Michael Haneke para aprender como se filma.
Ao Von Trier parece-me que agora só lhe resta um caminho, conseguir realizar o projecto de um filme absolutamente pornográfico (ideia antiga de LVT já iniciada no interessante “Os Idiotas”) talvez com esse filme consiga surpreender com uma obra decente.
Para terminar, revoltou-me a falta de respeito de Von Trier de no final do filme dedicar “à memória de Andrei Tarkovski”. Porquê? Necessitava de caucionar a porcaria do seu filme com a magistral obra de Tarkovski.
Aquela dedicatória é um insulto.
O que esta crítica tiver de indignação não será certamente tão metaforicamente explicita quanto este “Anticristo” de Lars Von Trier utilizando aquelas reles imagens em close up.