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o travelling de Kapo

O famoso, pelas piores razões, travelling de que todos os cinéfilos ouviram falar, do filme que quase ninguém viu. Da reflexão de Jacques Rivette em 1961 que já denunciava como as imagens são manipuladoras e se indignava com abjecção do real de alguns filmes, prenúncio da actual desumanização mediática, ao cinéfilo texto do crítico Serge Daney em 1992.





O «TRAVELLlNG» DE KAPO*
Serge Daney [1944-1992]
Crítico de cinema na revista Cahiers du Cinema,
no jornal Libération e fundador da revista de cinema Trafic


Entre os filmes que nunca vi, não estão apenas Outubro, Le Jour se Léve ou Bambi, há também esse obscuro Kapo. Filme sobre os campos de concentracão, rodado em 1960 pelo italiano de esquerda Gillo Pontecorvo, Kapo não deixou marcas na história do cinema. Serei eu o único a nunca o ter esquecido, apesar de nunca o ter visto? É que eu nunca vi Kapo mas, ao mesmo tempo, vi-o. Vi-o porque alguém — através das palavras — mo mostrou. Este filme, cujo título, como uma senha, acompanhou toda a minha vida de cinema, só o conheço através de um curto texto: a crítica que fez Jacques Rivette em Junho de 1961 nos Cahiers du Cinéma. Era o número 120, o artigo chamava-se «Da abjecção», Rivette tinha trinta anos e eu dezassete. Acho que até aí nunca tinha sequer pronunciado a palavra «abjecção» em toda a minha vida.
No seu artigo, Rivette não contava o filme; contentava-se, numa frase, em descrever um plano. Essa frase gravou-se-me na memória e dizia o seguinte: «Vejam em Kapo, o plano em que Riva se suicida, atirando-se sobre o arame farpado electrificado: o homem que decide fazer, nesse momento, um travelling para reenquadrar o cadáver em contra-picado, tendo o cuidado de colocar a mão erguida num ângulo preciso do seu enquadramento final, este homem só tem direito ao mais profundo dos desprezos». Assim um simples movimento de câmara podia também ser o movimento que não se devia fazer. Aquele que deveria — de modo evidente — ser abjecto fazer. Mal tinha lido estas linhas, soube que o seu autor tinha absolutamente razão.
Abrupto e luminoso, o texto de Rivette permitia-me descrever esse rosto da abjecção. A minha revolta tinha encontrado por fim palavras para se dizer.
Mas havia mais. É que essa revolta era acompanhada por um sentimento menos claro e, sem dúvida, menos puro: O reconhecimento aliviado de ser esta a minha primeira certeza de futuro crítico. Ao longo dos anos, com efeito, «o travelling de Kapo» seria o meu dogma portátil, o axioma que nunca se discutia, o ponto final de qualquer debate. Com alguém que não sentisse imediatamente a abjecção do «travelling de Kapo», eu não teria, definitivamente, nada a ver, nada a partilhar.
Este género de recusa estava, aliás, no espírito do tempo. À vista do estilo irritado e excessivo do artigo de Rivette, sentia que ele provinha de antigos e furiosos debates e parecia-me lógico que o cinema fosse a caixa de ressonância privilegiada de todas essas polémicas. A guerra da Argélia tinha acabado com a crença de quem — por não ter sido filmada — estivesse à partida desconfiado em relação a qualquer representação da História.
Qualquer pessoa podia agora perceber que existissem — mesmo, e sobretudo, no cinema — tabus, facilidades criminosas e montagens interditas. A formula célebre de Godard, que via nos travellings «uma questão de moral», era, para mim, um desses truísmos sobre os quais não se podia ceder. Eu não, em qualquer caso.


(Inicialmente publicado na revista Trafic, (Outono de 1992), foi posteriormente incluído no volume Perséverance, Paris, P.O.L., 1994.)


* Excerto do texto “O travelling de Kapo”, publicado na Revista de Comunicação e Linguagens, nº23. “O que é o Cinema”. Edições Cosmos, 1996. Tradução de Célia Quico. Revista por Cláudia Gonçalves, Jorge Rosa e João Mário Grilo.