Árvore da Cinefilia



A convite do Carlos Natálio escrevi este texto para a sua "Árvore da Cinefilia"




Je n'aimerai pas voir un film pour la première fois en vidéo ou à la télévision, on voit d'abord un film en salle. Cinéma et vidéo, c'est exactement la différence entre un livre qu'on lit et un livre qu'on consulte –  

François Truffaut


O título “Árvore da Cinefilia” é uma feliz expressão que me diz muito, porque junta as árvores e o cinema tão indispensáveis na minha vida. Não sei precisar qual foi o filme que serviu de semente, as árvores de grande porte e a cinefilia são de crescimento lento e como quase todos nós, vejo filmes antes de saber ler e escrever.
O fascínio pelas imagens acompanha-me desde a infância, quando me iniciei a ver filmes mudos de Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd e todos os outros pioneiros que estiveram nas origens do cinematógrafo. Vi esses primeiros filmes na televisão.
Lembro-me de sair da escola a correr para apanhar, não o autocarro, mas as curtas-metragens de Charlot que passavam pelas 18h no segundo canal e os filmes de animação que Vasco Granja apresentava. Da primeira vez que vi “The General” e nunca mais esquecer o filme e o genial Buster Keaton.
Dos Westerns, os Noir, os filmes de aventuras, os épicos e os Peplums que víamos em família, aos sábados à noite, no grande sofá da sala. Os filmes de Tarzan e a comédia italiana com o carismático Totò nas sessões televisivas de domingo à tarde.
Cresci numa cidade com três salas de cinema (agora desaparecidas) e exibições diárias de filmes. Assistia a praticamente todos os filmes que estreavam, os únicos critérios eram: ser um filme novo e em função da faixa etária. Quantos mais anos tinha, mais filmes via. Antes de ter a idade para certos filmes acendia um cigarro que ardia no canto da boca e amassava um jornal debaixo do braço, às vezes, ainda que engasgado passava, não enganava os porteiros, era um velho truque dos mariolas da altura, e se estavam bem dispostos, os porteiros resmungavam, mas lá cortavam o bilhete. Em segundos viajava no tempo. As minhas aventuras em salas de cinema são muitas, contudo essas são outras histórias. Neste percurso inicial sem metodologia alguma, numa anarquia estimulante, como a descoberta do mundo, ia decorando os nomes de realizadores e actores. Mais tarde recortava reproduções de cartazes dos jornais, criei pastas e pastas com fichas de filmes, textos críticos e tudo o que se relacionava com cinema, começava o interesse pelo lado reflexivo que os filmes me provocavam. Tinha um caderno onde apontava todos os filmes a que assistia, com a respectiva ficha técnica e a galáxia das estrelas. Tudo isso já não existe que o tempo não perdoa, gostaria de ter conservado o caderno, porém e infelizmente perdi-lhe o rasto. Na altura do liceu fazia de tudo para ir ao cinema, faltava a imensas aulas e até doente com gripe conseguia fugir de casa, à tarde, para ir ver um filme, voltava para o conforto da cama e no dia seguinte é claro que continuava com febre e a escola era muito longe e não passava filmes, mas fazíamos muitos filmes. Os filmes eram a minha cura, e às vezes a desgraça da minha vida. As salas de cinema o refúgio, a casa onde encontrava a minha paz. Esta compulsão por ver filmes, descobri mais tarde que se chamava cinefagia, e então ria-me a pensar que sofria de uma doença saudável.
No final da adolescência começam as minhas leituras sobre cinema, na biblioteca requisitava os primeiros livros, o André Bazin e os outros todos, à cinefagia acumulei a angústia, referiam filmes que não conhecia, que não sabia, nem imaginava como os poderia ver, pensava que não iria ter tempo na vida, suficiente para ver os filmes todos, ingenuamente julgava que o cinema era uma caixa com fundo, só muito mais tarde descobri que é um buraco sem fim. Resignado mas não vencido continuaria a ver filmes. Todavia, era preciso o maldito dinheiro para ir ao cinema, num almoço de domingo disse ao meu pai “Olha, já que não tenho semanada, não poderias todos os domingos dar-me uns cobres para ir ao cinema?”. A resposta aguçou o desenrascanço e dinheiro para filmes e flippers nunca me faltou. A minha cinefilia, sem saber o que era isso, inicia-se nos finais dos anos 70 e cresce nas décadas de 80 e 90 entre a televisão e as salas de cinema e mais tarde perde-se no delírio de milhares de gravações em cassetes VHS. Agora continua, nas salas que ainda resistem e muito na indomável cinemateca virtual da internet, essa preciosa mina cinéfila. Quando pela primeira vez mergulhei na Nouvelle Vague só não me afoguei porque já tinha muito mar de filmes. Com o grande Jean-Luc Godard levei tão grande bofetada que nunca mais recuperei, foi com Godard que aprendi a pensar nas imagens, nos sons e palavras e nas relações complexas que estabelecem. E quando entrei na blogosfera, JLG foi o padrinho do blog “num filme de godard” que depois mudei para “unraccord” e agora está encerrado. Para esta “Árvore da Cinefilia” sei precisar muito bem qual é o meu filme, não poderia ser outro a não ser “Les Quatre Cents Coups” (1959) de François Truffaut. Foi neste filme que encontrei a minha segunda filiação, eu pertencia àquele mundo de Antoine Doinel (Jéan-Pierre Léaud) por tudo o que já contei atrás. Tinha e mantém-se um fascínio pela cidade de Paris, o genérico do filme começa com uma sequência de imagens da cidade e da Tour Eiffel (Truffaut era fascinado pela torre e colecionava livros ilustrados, postais e objectos que a reproduziam), Doinel também fugia para as salas de cinema, tal como Truffaut, tal como eu, e só para me chatear também lia Balzac. Durante uns tempos substituia, na brincadeira, o título literal português pela expressão “Trinta por uma linha” ninguém conhecia esse filme de um puto rebelde que gostava de ver filmes. E como não ter um filme com aquela maravilhosa e magistral sequência final, de cerca de 4 minutos, de Doinel a correr em fuga até ao mar, como um dos meus filmes da vida?



Paterson



PATERSON (2016) Jim Jarmusch

Conta-se que “não se deve regressar onde se foi feliz”, nunca percebi bem esta expressão. Voltei a Paterson, o filme, e fiquei extremamente surpreendido com este segundo visionamento.
A estreia de Paterson em sala foi constantemente adiada, como grande admirador da filmografia de Jarmusch cansei-me de esperar pelo filme, e o primeiro visionamento foi há uns meses e sem legendas. Há cineastas em actividade que não falho um filme novo, Jarmusch é um deles, Aki kaurismaki outro, e poucos mais. Felizmente e finalmente este filme estreou em sala e talvez o espaço e a tela maior tenham contribuído para que desta segunda vez o filme tenha crescido e valorizado ainda mais. Este filme precisa de tempo e de entrega à lenta observação. Não, não é apenas um filme sobre poesia, muito menos sobre “a poesia”, ou sobre um poeta, quanto muito sobre o quotidiano de um homem que lê e escreve poemas. Não coloca a poesia em nenhum pedestal, antes questiona e mostra o acto de escrever e não dá respostas sobre o que é a poesia, não se espere por um manual poético. Se Jarmusch caísse nessa armadilha, teria falhado completamente o filme, e é por um ténue fio que escapa à queda. Foi com essa primeira errada leitura que fiquei, tudo por causa daquelas imagens demasiado ilustrativas e de um lirismo para o qual já perdi a paciência, refiro-me às sequências de imagens em fundido, água, letras dos poemas manuscritas, mais outras imagens em várias camadas. Essa primeira análise mantém-se, são dispensáveis, redundantes e sublinham a bold a audição e a leitura dos poemas.
Essas imagens são o ponto frágil do filme, a armadilha lírica da expressão “um filme poético”. No arame, Jarmusch mantém o equilíbrio durante todo o filme e começa de forma admirável com aquele plano no quarto, um picado absoluto. Esse plano recorrente é o da observação atenta que está presente na poesia de quem sabe ler o mundo, na paisagem, nos rostos, nos corpos, nos gestos, nas palavras, nos olhares e objectos. É nessa lenta observação quotidiana do mundo que nascem “as palavras de água” de Paterson, um homem simples e condutor de autocarros (Adam Driver com uma interpretação magnifica).
O filme divide-se em 7 capítulos diários de segunda a domingo e são 7 as sequências estruturais de todo o filme:
1- Os planos picados no quarto com a mulher (Golshifteh Farahani), o acordar para a observação do mundo, o relógio, os retratos e outros objectos
2- Na sala/cozinha com a mulher e o cão, Paterson sempre a observar o espaço que o rodeia
3- Na saída de casa, com aquele gag diário da caixa do correio, a caminho a pé para o trabalho, observa e vai diariamente construindo um poema
4- No interior do autocarro, a conduzir no seu trajecto pela cidade, observa e escuta a conversa dos passageiros
5- Ao fim do dia leva o cão ao seu passeio e vai ao habitual “Shades Bar”. Observa todo o espaço, os objectos, escuta com atenção os outros clientes enquanto bebe a sua cerveja
6- No cinema com a mulher a ver um filme a preto e branco do século XX (Island of Lost Souls, 1932, de Erle C. Kenton)
7- Sentado no banco a observar a cascata de água de Paterson (New Jersey), onde escreve poemas e no final tem aquela conversa reconfortante com o poeta japonês.
Estas sequências são pontuadas por outros detalhes narrativos e de observação atenta como os livros e os poetas de referência de Paterson (William Carlos William, Frank O’Hara, Emily Dickinson, etc); a conversa sobre poesia com a jovem rapariga; a conversa com o rapper na lavandaria; as conversas com o dono do bar e evidentemente as conversas com a mulher que consciente da poesia que Paterson escreve no seu caderno ou livro secreto o tenta convencer a que faça umas fotocópias de salvaguarda. E chegamos ao clímax do filme, aquele homem que nunca se assumiu como poeta, vê-se perante uma grande perda. Completamente consternado caminha em direcção à cascata que com tanto prazer costuma contemplar, de mãos no bolso e de alma vazia, senta-se e observa, entretanto aproxima-se um poeta/turista japonês. Conversam sobre poesia, ganha um caderno novo e começa de novo a pensar em escrever poemas, sabemos que vai recomeçar, que não pode deixar de o fazer, através daquele curto travelling sobre o rosto de Paterson. Recomeçar tudo outra vez, porque se a poesia “ensina a cair” o cinema ajuda a levantar.
Voltei a Paterson, o filme, para contrariar as expressões gastas de frases feitas e confirmar que das fragilidades se pode fazer uma grande obra, neste caso um grande filme. Ah Ah! (diria o poeta Japonês).

[Não quero terminar este texto sem referir e destacar os poemas que aparecem no filme da autoria de Ron Padgett (1942) que muito gostaria de ver traduzido e editado em Portugal]

Adeus à Linguagem


Breves e pobres palavras sobre o dia 24 de Julho que guardarei na memória, depois de assistir ao magnifico filme “Adeus à Linguagem” (2014) de Jean-Luc Godard.
Vi em casa a versão 2D, senti que perdi alguma coisa, só possivel de ver em 3D, principalmente em relação à profundidade das imagens, que o 2D não proporciona na sua totalidade. Porém, é também no que não se vê que se vislumbra algo de novo. (O filme fala disso mesmo).
Este é mais um filme de JLG que inflige uma cesura na história do cinema. Como quase sempre, Godard assume-se como o pensador, evocando até a escultura de Rodin, através das imagens, sons e palavras assentes em fragmentos de uma síntese absoluta do estado do mundo. Como habitualmente, evoca e cita filósofos, escritores e pintores cruzando-os com a cinefilia, sempre presente na reflexão politica sobre o mundo e a história. Neste filme, diria religioso, “A sombra de Deus...Toda a gente pode fazer com que Deus não exista, mas ninguém o faz” (retirado do filme) no sentido de religar a linguagem do mundo nas suas diversas assumpções como a palavra, a imagem e o som e chegar à pobreza da própria linguagem. Esta aproximação é uma marca da religiosidade do filme que se transmite, também, através da música. Por isso, a presença constante de um cão como símbolo da essência das coisas. Visionei o filme juntamente com o meu gato, surpreendentemente ele estava bastante atento a olhar para a TV, estaria a ver as imagens que eu não conseguia? “Adeus à Linguagem” não é um filme que apenas continua a obra de JLG, mas que faz o cinema dar um salto para uma imensa profundidade. Um filme híbrido na forma 2D e 3D, permitindo dois visionamentos bem diferentes na recepção, um na sala de cinema e outro em casa, tal como ironicamente um filme doméstico, um home movie. Jean-Luc Godard aos 84 anos é o mais novo visionário do conceito de cinema, e este um filme do Não e da Resistência.

Zorba, o Grego


25 de Janeiro de 2015


Alexis Zorba
(Grécia, 1964, 142')
de Mihalis kakogiannis
Com Anthony Quinn, Alan Bates e Irene Papas



"C’est l’Occident qui a une dette par rapport à la Grèce. La philosophie, la démocratie, la tragédie… On oublie toujours les liens entre tragédie et démocratie. Sans Sophocle pas de Périclès. Sans Périclès pas de Sophocle. Le monde technologique dans lequel nous vivons doit tout à la Grèce. Qui a inventé la logique? Aristote. Si ceci et si cela, donc cela. Logique. C’est ce que les puissances dominantes utilisent toute la journée, faisant en sorte qu’il n’y ait surtout pas de contradiction, qu’on reste dans une même logique. Hannah Arendt avait bien dit que la logique induit le totalitarisme. Donc tout le monde doit de l’argent à la Grèce aujourd’hui. Elle pourrait demander mille milliards de droits d’auteur au monde contemporain et il serait logique de les lui donner. Tout de suite." - Jean-Luc Godard

Cavalo Dinheiro



CAVALO DINHEIRO de Pedro Costa, mais do que um filme, uma obra de arte. Cinema de uma potência elevada. Há muito a dizer, mas não tenho tempo, que é uma boa desculpa para dizer que não me apetece dizer mais nada, vejam o filme. Esta sequência, entre outras é belíssima.




texto de Luís Miguel Oliveira no ípsilon

texto de Inês Lourenço no À pala de Walsh

texto de José Oliveira  do blog raging-b


Natais Brancos




Natais Brancos

«Um Natal sem presentes nem parece Natal.» Era assim, se a memória não me trai, que começava a adaptação portuguesa – As Quatro Raparigas – do popular romance de Louise May Alcott, Little Women, tantas vezes adaptado ao cinema. Estou de acordo. Sempre adorei dar e receber presentes, no Natal mais do que nunca. E sou daqueles que gosta do Natal, que gosta imenso do Natal. Natal com todos os efes e erres, com todas, todas as tradições. Desconfio até das pessoas – falo daquelas que não entraram para a vida pela porta de serviço – que não gostam do Natal. No sentido em que Godard dizia, no Petit Soldat: «Méfiez-vous des femmes qui n’aiment pas manger.»

Mas quando eu era miúdo, não era só um Natal sem presentes que não era Natal. Era um Natal sem Cinema, ou um Natal sem Circo. Filmes e Coliseu eram inseparáveis da festa. Com as tias velhas e os primos diferentes, foram das coisas que perdi. As tias morreram, os primos tornaram-se diferentes (ou indiferentes), o Circo acabou. Só o Cinema continua.

Em relação ao Circo tinha sentimentos contraditórios. Fascinava-me mas assustava-me. As feras, os faquires, os prestidigitadores, os ventríloquos, sobretudo os palhaços. E o sr. França, que não se chamava José-Augusto. Eram reais e irreais, ao mesmo tempo e demais. Depois, um triste dia, descobri que não havia palhaços, que os palhaços não existiam. Foi quando me cruzei na rua com um sisudo e insignificante cidadão e alguém me disse que aquele era o palhaço rico, da cara branca, do Coliseu. Tive um choque muito maior do que no dia em que soube que afinal não era o Menino Jesus quem descia pela chaminé para me por os presentes no sapatinho, ou quando soube como nasciam as crianças. Se a minha fé em Deus e nos homens resistiu a isso, é porque resiste a tudo. Graças a Deus, foram revelações tardias. Nunca suportei também aqueles pais pedagógicos que, em nome da verdade, acham que não se deve contar às crianças a história do Menino Jesus. Como se os pais não existissem senão para dizer mentiras, como se educar não fosse senão mentir. Quando muito transijo – com pouca simpatia – na substituição pagã do Menino Jesus pelo Pai Natal. O cinema era o décor – a profundidade de campo – de onde saíam todas as maravilhas dos dias seguintes, já que, geralmente, acontecia antes de tudo o resto, no dia em que era conveniente que estivéssemos fora de casa, para não ver os preparativos do Natal. A minha mais antiga recordação vem dos cinco anos e tem como nome O Feiticeiro de Oz, que em 1989 fará 50 anos (a Portugal só chegou no Natal de 1940).

Esse filme, que continua a ser um dos «filmes da minha vida», esse filme de que já se tem dito, com carradas de razão, que é a mais portentosa metáfora de Hollywood (até se diz que todos os filmes posteriores contêm uma referência a The Wizard of Oz), foi paixão à primeira vista. Dorothy «Over the Rainbow». A passagem do sépia às cores. O Espantalho, o Homem de Lata e o Leão (sempre amei mais o Leão do que todos os outros). A Cidade-Esmeralda, o Feiticeiro, os «Munchkins», os sapatinhos de rubi, os chupa-chupas liliputianos. E a bruxa, aquela bruxa má, primeiro de bicicleta e, depois, soterrada, a seguir ao ciclone, só com os sapatos de fora. O único ciclone da minha vida – Lisboa, 1941 – misturou-se tanto com o do Kansas que já não sei onde começou um e acabou o outro. também dizem que aconteceu na vida real. Há quem jure que no dia da morte de Judy Garland um ciclone se abateu sobre Kansas. Assim deve ser. «De cada vez que vemos Judy passar para lá do arco-íris» - escreveu Denny Peary - «temos vontade de a avisar que é preciso ter muito cuidado.» Ela não teve. Só me pergunto se o cuidado a ter é com os ciclones que nos levam ou com os balões que nos trazem.

The Wizard of Oz está ainda ligado à minha primeira dúvida metafísica. Nesse Natal – o tal Natal de 1940 – o Menino Jesus deu-me o livro de L. Frank Baum, reeditado, em português. Tinha uma capa dura, amarela, onde estavam Dorothy (Judy Garland), o Leão (Bert Lahr), o Espantalho (Ray Bolger), o Homem de Lata (Jack Haley) e, a um canto, o Feiticeiro (Frank Morgan). E tinha uma cinta onde se dizia, mais ou menos, «O livro que serviu de base ao filme da METRO-GOLDWYN-MAYER, actualmente em exibição no cinema Éden». Não foi a descoberta da vocação publicitária do Menino Jesus que me fez suspeitar. Mas o excesso de precisão. Como é que, lá no Céu, a distribuir Feiticeiros de Oz por todo o mundo, o Menino Jesus acertava com o cinema de Lisboa? Mudava de cinta conforme os países e as cidades? Não sou capaz de reconstruir exactamente os fundamentos da dúvida, mas andavam à roda de tão particular localização. Lá me deram uma explicação qualquer (a omnisciência do Menino) e convenci-me. Admirei-O ainda mais depois de tal façanha. E essa capa ficou para mim como a prova suprema da existência divina, certamente mais convincente do que o argumento de Santo Anselmo.

No Natal de 41, foi The Thief of Bagdad. Sabu tomou o lugar de Judy Garland e Conrad Veidt o de Margaret Hamilton (a Bruxa Má).

O Natal de 42 foi o do meu heterónimo Dumbo, outra criatura já aqui convocada e que, desde essa altura, me comove tanto como comovia aquele general do 1941 de Spielberg. Passei a sonhar a cor-de-rosa e ia de maravilha em maravilha e de voo em voo: o voo dos balões no Feiticeiro; o voo de Sabu às costas do gigante no Ladrão de Bagdad; o voo de Dumbo, com as orelhas a fazer de asas.

A voar continuei, no Natal de 43, sem reparar que mudara de imaginário e dos campos então em conflito. O filme desse ano era alemão e chamava-se Münchhausen (Josef Von Baky, 43). Em Portugal, chamaram-lhe O Barão Aventureiro. Vi-o no Ginásio. Deve ter sido das primeiras vezes que fui ao cinema sem adultos, já que me lembro bem que o meu único companheiro era um amigo do colégio, da mesma idade que eu. Está-me ligado na memória a uma das minhas primeiras humilhações socias. Quando lá chegámos, a lotação estava praticamente esgotada e só havia lugares no Balcão de 3ª. Comprei os bilhetes e lá subimos até aos carrapitos, com ele muito calado. Antes do filme começar, olhando com ar desaprovador a sala, disse-me secamente: «E eu, habituado a Plateias e Balcões de 1ª, venho hoje para um Balcão de 3ª.» Engoli em seco. Afinal era a precoce manifestação de uma vocação. É, hoje, Embaixador de Portugal.

Mas o filme fê-lo esquecer a posição de classe, como me fez esquecer a mim o embaraço. Hans Albers – o Barão – tinha uma bola de cristal e voava de corte em corte e de prodígio em prodígio. Deu-nos uma lição de geografia e uma lição de astronomia. Passamos a seguir em mapas e em  colecções de selos os países por onde tinha andado o Barão de Münchhausen, que deixara os russos de boca aberta perante os poderes mágicos dos alemães, em contraste flagrante com o que no mesmo ano se passava, mas não entrava nessa história nem na nossa história. Rússia era a de Catarina, não era a de Estaline. Alemanha era a de Münchhausen, não era a de Hitler. Não me venham dizer que o cinema aliena.

Natais seguintes foram menos mágicos e mais religiosos. Passei-os com o Padre O’Malley (Bing Crosby, mais querubínico do que nunca) ora às voltas com um velho sacerdote rabugento (o genial Barry Fitzgerald) em Going My Way (Natal de 44) ora às voltas com uma freira sadia e sorridente (Ingrid Bergman) em The Bells of St. Mary’s (Natal de 46). Ambos foram realizados pelo mais romântico e mais céptico dos cineastas de Hollywood: Leo McCarey. Nessa altura, dei mais pelo romantismo e menos pelo cepticismo. Chorei muito com a chegada da velha mãe de Barry Fitzgerald no final do Bom Pastor (título português de Going My Way) e não percebi por que é que Bing Crosby e Ingrid Bergman não se casavam no final de Os Sinos de Santa Maria.

A vida-cinema ensinou-me que Going My Way é também um dos mais sinistros filmes sobre a solidão e que The Bells of St. Mary’s acaba com uma das mais equívocas lines de qualquer diálogo de Hollywood. É quando Bing Crosby se despede de Ingrid Bergman e lhe diz: «If you’re ever in trouble dial O for O’Malley.»

No fundo, é uma despedida equivalente à de Judy Garland do Espantalho quando se mete no balão e lhe diz: «I’m going to miss you must of all.» É sempre a mesma história, ficam sempre as mesmas saudades. Ao som de Irving Berlin e do White Christmas, cantado pela primeira vez noutro filme natalício, Holliday Inn (Mark Sandrich, 42) com Bing Crosby e Fred Astaire.

No cinema, como no Natal, tudo mudou para ficar na mesma. Louvados sejam.


João Bénard da Costa
in "Os filmes da minha vida, os meus filmes da vida" - 1º volume
Assírio & Alvim, 2003



Outros amarão as coisas que eu amei






Um filme belíssimo. Uma sentida homenagem ao grande cinéfilo João Bénard da Costa e ao cinema pelo cineasta Manuel Mozos:

"João Bénard da Costa foi director da Cinemateca Portuguesa durante 18 anos. Eu segui o caminho das suas memórias e encontrei o seu amor pela pintura, pelas igrejas, por Proust e Musil, por Itália, cinema, Mozart e os seus amigos. Mas o que eu realmente queria era tornar presente o homem de carne e osso, cheio de contradições, um homem livre.
Ele gostava de uma frase de Manoel de Oliveira:
"A vida é um enigma, não é legível, e são os rituais que a permitem ler." Este filme seria uma continuação desse ritual, mas para lá da sua morte..."

Um filme de fragmentos da memória corporizados nas imagens, sons e palavras de filmes, pinturas, música e textos. As paixões pela arte, livros e cinema. O desejo, o mistério, a morte e a vida estão representados neste magnifico documentário que se afasta das repetidas e gastas fórmulas das biografias filmadas com testemunhos e das montagens tradicionais telejornalísticas.  
O fantasma de João Bénard da Costa apresenta-se envolto de poesia, tanto que até o título incorpora um verso da poeta Sophia de Mello Breyner Andresen "Outros amarão as coisas que eu amei".
Este verso de esperança e que muitos recebem e entendem como uma enorme partilha, como é o meu caso, paradoxalmente, poderá deixar de fazer sentido para outros e até para este mundo do século XXI onde o Cinema da época dourada das salas e da cinefilia já não existe. Escute-se com toda a atenção as palavras de João Bénard da Costa, neste documentário, sobre o que foi a Cinefilia. E todos aqueles que, actualmente, se dizem cinéfilos por verem filmes compulsivamente, talvez percebam que cinefilia é muito mais que ver muitos filmes. Espera-se que não demore muito tempo para que este documentário seja exibido pela RTP2 e que todos - "os outros" do poema - também venham a amar o que João Bénard da Costa amou.



QUANDO

Quando o meu corpo apodrecer e eu for morta
Continuará o jardim, o céu e o mar,
E como hoje igualmente hão-de bailar
As quatro estações à minha porta.

Outros em Abril passarão no pomar
Em que eu tantas vezes passei,
Haverá longos poentes sobre o mar,
Outros amarão as coisas que eu amei.

Será o mesmo brilho, a mesma festa,
Será o mesmo jardim à minha porta,
E os cabelos doirados da floresta,
Como se eu não estivesse morta.



Sophia de Mello Breyner Andresen
in Dia do Mar




Wanderer, ou a busca da razão de ser


"6 Mois de Cabane au Baikal"
um belíssimo filme de Sylvain Tesson
escritor e viajante (wanderer)



  Pintura de Olivier Desvaux, Sylvain Tesson dans sa cabane en Sibérie




"Pour rassasier son besoin de liberté, Sylvain Tesson a trouvé une solution radicale: s'enfermer dans une cabane en pleine taïga sibérienne, sur les bords du lac Baïkal, pendant six mois.
Il est invité au Grand Bivouac (Festival du voyage) 2011, du 20 au 23 octobre, pour plusieurs rencontres, conférences, débats avec lui autour de la projection de ce film.
De février à juillet, il a choisi de faire l'expérience du silence, de la solitude, et du froid. Il a écrit un livre sur son expérience : Dans les forêts de Sibérie.

« Le défi de six mois d'ermitage, c'est de savoir si l'on réussira à se supporter.
En cas de dégoût de soi, nulle épaule où s'appuyer, nul visage pour se lustrer
les yeux. Vivre en cabane c'est l'expérience du vide ! »

En filmant presque quotidiennement ses impressions, ses joies et ses peines face à la splendeur du lac, ses doutes, mais aussi, ses moments d'extase, de paix intérieure et d'osmose avec la nature, Sylvain Tesson nous fait partager un rêve enraciné dans l'enfance, l'expérience d'une transformation intérieure. « La vie en cabane apprend à peupler l'instant, à ne rien attendre de l'avenir et à accepter ce qui advient comme une fête. Le génie du lieu aide à apprivoiser le temps. »

Un film de Sylvain Tesson et Florence Tran
Une production Bo Travail !" - via Festival Le Grand Bivouac


"Pour éprouver le vide, la solitude et le silence, Sylvain Tesson part 180 jours seul dans une cabane au Lac Baïkal, en Sibérie. Ecrivain voyageur français, ce géographe de formation a l'habitude de ces aventures. Après la traversée des steppes d'Asie centrale à cheval ou encore sa reprise de l'itinéraire des évadés du goulag de Sibérie jusqu'en Inde à pied, Sylvain entreprend un voyage immobile. Il s'était juré de se retirer au fond des bois avant ses 40 ans et faire sa révolution à lui-même. C'est chose faite. À bord de son camion bleu, notre aventurier part muni de six mois de vivres, de vodka, de quoi pêcher, quelques cigares et plusieurs livres. À la recherche de sa raison d'être, Sylvain Tesson s'enfonce dans le néant au bord de la plus volumineuse réserve d'eau douce libre de la planète. Il y apprend à se discipliner à un rythme immuable entre lecture et écriture, s'habituant à la vie par moins 30 là où la rumeur du monde n'atteint pas les rivages."





sinopse do livro desta experiência solitária:
«Assez tôt, j'ai compris que je n'allais pas pouvoir faire grand-chose pour changer le monde. Je me suis alors promis de m'installer quelque temps, seul, dans une cabane. Dans les forêts de Sibérie. J'ai acquis une isba de bois, loin de tout, sur les bords du lac Baïkal. Là, pendant six mois, à cinq jours de marche du premier village, perdu dans une nature démesurée, j'ai tâché de vivre dans la lenteur et la simplicité. Je crois y être parvenu. Deux chiens, un poêle à bois, une fenêtre ouverte sur un lac suffisent à l'existence. Et si la liberté consistait à posséder le temps? Et si la richesse revenait à disposer de solitude, d'espace et de silence - toutes choses dont manqueront les générations futures? Tant qu'il y aura des cabanes au fond des bois, rien ne sera tout à fait perdu.»